Luz que não disputa altares

Por Hiran de Melo

Introdução – O impacto do olhar que vigia e julga

Ao adentrar os Mistérios da Maçonaria e receber a plenitude do grau de Mestre Maçom, deparei-me não apenas com símbolos, ritos e silêncios, mas também com a multiplicidade de discursos que tentam aprisionar a Ordem em definições estreitas. Muitos textos que circulam fora dos muros do Templo falam sobre a maçonaria sem jamais terem falado a partir dela. Classificam, rotulam, enquadram. E, ao fazê-lo, produzem mais vigilância do que compreensão.

Grande parte dessas leituras nasce de uma premissa reducionista: a de que tudo aquilo que utiliza rito, símbolo e linguagem do sagrado deve necessariamente ser religião formal. Essa leitura, comum em abordagens apologéticas cristãs, ignora deliberadamente os próprios textos maçônicos e silencia aquilo que mais incomoda: o fato de que a maçonaria não reivindica o monopólio da verdade, mas convida ao trabalho permanente sobre si.

Sobre a natureza da maçonaria – O que não se deixa capturar

Como Mestre Maçom, aprendi rapidamente que insistir em classificar a maçonaria como religião é um gesto de simplificação que tranquiliza quem classifica, mas empobrece o objeto observado. A Ordem se compreende como uma escola de moral e de filosofia simbólica. Utiliza elementos religiosos não para impor crenças, mas porque essa linguagem atravessa culturas e épocas, funcionando como meio de comunicação de valores universais.

Confundir rito com dogma é ignorar que o rito maçônico não exige adesão intelectual cega, mas provoca deslocamento interior. Aqui, o ensino não se dá por tratados ou conferências, mas pela Celebração dos Mistérios: um modo de aprender que envolve o corpo, o silêncio, o tempo e a experiência. Trata-se menos de convencer e mais de transformar.

A aceitação de que o Ser Supremo se revele conforme a cultura, a história e o nível de consciência de cada obreiro não é relativismo frouxo, como acusam alguns, mas reconhecimento de que toda verdade se manifesta em contextos concretos. Por isso, a religião do Irmão não é objeto de vigilância nem de correção: é respeitada como parte de sua própria travessia.

Símbolos e rituais – Onde o poder do sentido se desloca

Ouço com frequência que os símbolos maçônicos seriam adornos vazios, criados para preencher um suposto vazio espiritual. Nada revela mais desconhecimento do que essa afirmação. O símbolo, na maçonaria, não decora: ele desestabiliza. Não entrega respostas prontas; abre fissuras no pensamento automático.

Cada símbolo funciona como um espelho exigente. Ele não substitui a fé de ninguém, mas também não se submete a ela. Ele obriga o iniciado a pensar, a reinterpretar, a reconhecer que a verdade não se impõe de fora, mas se constrói no exercício contínuo de leitura de si e do mundo.

É justamente por isso que alguns veem nesses símbolos uma espiritualidade concorrente. Não porque a maçonaria proclame outra salvação, mas porque ela recusa a tutela de qualquer discurso que se pretenda único e absoluto.

A relação com o cristianismo – Entre convivência e tensão

Como Mestre Maçom, percebo que a oposição radical entre maçonaria e cristianismo é menos teológica e mais discursiva. Ela nasce da necessidade de traçar fronteiras nítidas entre “luz” e “trevas”, “dentro” e “fora”. Essa lógica ignora um dado simples: muitos maçons são cristãos convictos, vivem sua fé e não veem contradição entre o Evangelho e o trabalho simbólico da Ordem.

A maçonaria não disputa púlpitos nem sacramentos. Ela cria um espaço plural onde crenças diversas coexistem sem que uma vigie ou subjugue a outra. É claro que, do ponto de vista confessional, essa pluralidade pode ser percebida como ameaça, pois desloca a verdade do terreno da exclusividade para o da convivência.

Nesse sentido, compreendo a crítica cristã, mas também reconheço seus limites: ela fala a partir de um lugar que exige submissão, enquanto a maçonaria fala a partir de um lugar que exige responsabilidade sobre si.

Universalismo, filantropia e iniciação – O silêncio que incomoda

O sigilo maçônico frequentemente desperta suspeitas. Mas, como aprendi na vivência iniciática, o sigilo não protege segredos de poder; ele protege processos de formação. Não se trata de esconder ações, mas de preservar o tempo necessário para que o sentido amadureça.

A filantropia maçônica, por sua vez, não é propaganda nem moeda simbólica de salvação. Ela decorre naturalmente de uma ética que compreende o ser humano como obra inacabada e coletiva. Ser livre e de bons costumes, crer em um Ser Supremo e na imortalidade da alma não são filtros ideológicos, mas condições mínimas para quem se dispõe a trabalhar sobre si mesmo em um espaço simbólico.

Síntese – O que aprendi ao atravessar o véu

As interpretações equivocadas sobre a maçonaria nascem, em grande parte, da tentativa de dominá-la por meio de discursos que não a escutam. Reduzi-la a uma religião concorrente ou a uma filosofia disfarçada é uma forma de neutralizá-la, de torná-la inofensiva ao pensamento estabelecido.

Como Mestre Maçom, pleno de entusiasmo e também de vigilância crítica, compreendo hoje que a maçonaria não cabe em rótulos fáceis. Ela é, ao mesmo tempo, escola filosófica, experiência simbólica e caminho espiritual — não porque oferece respostas finais, mas porque ensina a perguntar melhor.

E talvez seja isso que mais incomode: a maçonaria não promete a posse da verdade. Ela convida ao trabalho paciente de desvelá-la, sabendo que todo desvelamento é sempre provisório, histórico e humano.

Texto de Referência:

MAÇONARIA E A FALSA PERCEPÇÃO DO SER HUMANO COMO REALIZADOR DAS MUDANÇAS EM SI E NO MUNDO, Danielli Meiri Cadore, Josemar Valdir Modes e Mara Regina Jagmin.

https://pt.scribd.com/document/721940690/Maconaria-e-a-Falsa-Percepcao-Do-Ser-Hum


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