A Mulher e a Maçonaria

O Salto Necessário para o Grande Oriente da Paraíba

Por Hiran de Melo

Há momentos na história de uma instituição em que aquilo que se apresenta como avanço precisa ser revisto com coragem. O Grande Oriente da Paraíba (GOPB) tem celebrado, com legítimo entusiasmo de seus dirigentes, diversos tratados de mútuo reconhecimento. À primeira vista, isso parece sinal de fortalecimento institucional. Mas é preciso perguntar: fortalecimento para quem — e a que custo?

A condição implícita desses tratados, na maior parte dos casos, é a manutenção de um modelo de regularidade que exclui a mulher da iniciação maçônica. E é justamente aqui que se revela o paradoxo: aquilo que se apresenta como progresso carrega, em sua base, um traço de atraso civilizatório.

Excluir a mulher por ser mulher não é um gesto neutro nem meramente tradicional. É uma escolha. E toda escolha institucional carrega um significado simbólico e ético. Quando uma mulher é impedida de participar plenamente, não se exclui apenas um indivíduo: exclui-se um princípio. Excluem-se vozes, experiências, sensibilidades e inteligências que pertencem à própria humanidade. Excluem-se, em sentido profundo, todas as mulheres — as que nos formaram, as que caminham ao nosso lado e as que virão depois de nós.

Há quem tente suavizar essa exclusão com o argumento das organizações paramaçônicas femininas. Mas essa solução, ao invés de resolver o problema, apenas o desloca. É a lógica da separação que se disfarça de inclusão. Como já ocorreu em tantos momentos da história, criar espaços paralelos para grupos excluídos raramente significa igualdade — muitas vezes significa apenas uma forma mais sofisticada de manter a desigualdade.

A questão central, porém, vai além da justiça interna. Ela toca diretamente na relevância social da instituição. Em que medida o GOPB tem impactado o desenvolvimento humano, cultural e ético da sociedade paraibana por meio desses tratados? A resposta, ainda que incômoda, parece evidente: tais acordos pouco ou nada têm contribuído para ampliar a presença transformadora da maçonaria no tecido social.

Isso ocorre porque reconhecimento externo não substitui coerência interna. Não é o número de tratados que define a grandeza de uma instituição, mas a sua capacidade de responder, com lucidez e coragem, às exigências do seu tempo.

E o nosso tempo exige inclusão.

A participação plena da mulher na maçonaria não deve ser vista como concessão, mas como necessidade histórica. Trata-se de uma ampliação do próprio ideal maçônico. A maçonaria, que se propõe a trabalhar pela construção de um homem melhor e de uma sociedade mais justa, não pode permanecer alheia a uma das mais fundamentais transformações da modernidade: o reconhecimento da igualdade de dignidade entre homens e mulheres.

A inclusão iniciática da mulher no GOPB representaria, de imediato, um salto não apenas quantitativo, mas sobretudo qualitativo. Novas perspectivas enriqueceriam os debates, ampliariam a capacidade de ação e fortaleceriam o compromisso com a realidade social. A instituição deixaria de ser um espaço restrito para se tornar um verdadeiro laboratório de humanidade.

Mais do que isso: ao abrir suas portas à mulher, a maçonaria paraibana poderia finalmente alinhar-se com o princípio universal que afirma defender — o da fraternidade. Pois não há fraternidade possível quando metade da humanidade permanece do lado de fora.

O verdadeiro avanço não está na multiplicação de reconhecimentos formais, mas na coragem de reconhecer aquilo que ainda precisa ser transformado dentro de si. O futuro da maçonaria — na Paraíba e além — dependerá menos de sua fidelidade ao passado e mais de sua abertura ao humano.

E o humano, em sua plenitude, é também feminino.

As eleições para a renovação do Grão-Mestrado do GOPB se avizinham, e faz-se necessário reconhecer a posição positiva do atual Grão-Mestre, Irmão Almir, que já declarou não disputar a reeleição. Da mesma forma, faz-se necessário que o candidato à sua sucessão assuma a bandeira da plena integração da mulher no GOPB.

ANEXO

A Ministra Cármen Lúcia, ao refletir sobre seus 20 anos no Supremo Tribunal Federal, destacou a persistente desigualdade de gênero na instituição e na sociedade brasileira. Ela enfatizou que a verdadeira igualdade só será alcançada quando houver plena representatividade feminina, lembrando que durante mais de um século o tribunal foi composto exclusivamente por homens sem que isso fosse considerado desigualdade.

Em sua fala, apontou três questões centrais:

1.    A violência sistemática contra mulheres, que resulta em mortes cotidianas por razões banais.

2.    A contradição entre o discurso de igualdade e a prática social que ainda trata mulheres como inferiores.

3.    A necessidade de passos concretos rumo a uma transformação cultural e civilizatória, que rejeite a barbárie e valorize a dignidade humana.

A ministra ressaltou que o preconceito contra mulheres é estrutural, manifestando-se tanto em exclusões institucionais quanto em violências físicas e simbólicas. Recordou movimentos históricos como o “Quem ama não mata” e a “bancada do batom”, que marcaram a luta por direitos, mas advertiu que ainda há muito a ser transformado.

Ela destacou que o medo e a vergonha são fatores que fragilizam as mulheres, tornando urgente o fortalecimento econômico, social e educacional, inspirado em uma educação democrática e transformadora. Denunciou também o impacto do discurso de ódio e da violência simbólica que afastam mulheres da política e de espaços públicos.

Por fim, reafirmou a necessidade de resistência e esperança, defendendo que homens e mulheres construam juntos uma sociedade livre, justa e solidária. Sua mensagem central ecoa a frase de Conceição Evaristo: “Combinaram de nos matar e nós combinamos de não morrer”, reafirmando a luta pela vida e pela dignidade feminina.

 


Legenda da imagem:

A Ministra Cármen Lúcia, em destaque no centro da composição, representa a voz firme e consciente da luta feminina por igualdade e dignidade. À sua esquerda, a dor da violência contra mulheres é simbolizada por uma mãe ferida e sua filha, ao lado de uma vigília com o lema “Quem ama não mata”. À direita, mulheres diversas erguem cartazes por direitos iguais e pela histórica “Bancada do Batom”, sinalizando resistência e mobilização política.

A corrente quebrada aos pés da ministra representa a libertação das amarras do preconceito estrutural, enquanto o caminho iluminado ao fundo aponta para uma sociedade mais justa e solidária. Os elementos como o livro aberto, a balança da justiça, a rosa e o voo da pomba reforçam a mensagem de transformação cultural e esperança.

A frase de Conceição Evaristo — “Combinaram de nos matar e nós combinamos de não morrer” — ecoa como manifesto de resistência e afirmação da vida.

Recomendo assistir o vídeo:

https://youtu.be/IzbRZ5We1Ds?si=RavOkeetkJ4wouLQ

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