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Mostrando postagens de março, 2026
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  Manifesto da Fidelidade Errante Por Hiran de Melo I. A Natureza do Fogo O amor não me é estranho; eu o reconheço, habito-o e por ele sou habitado. Contudo, recuso-me a mercadejar o que não possuo: a permanência do desejo. Em meu peito, o afeto por outrem inflama-se como labaredas súbitas — intenso em seu brilho, mas breve em sua existência, consumindo-se em si mesmo. Nas relações humanas, o amor traduz-se em paixão: esse vento que fustiga, essa fogueira que arde rápido e deixa apenas a cinza como testemunha do que foi. II. O Olhar e a Forma Como poeta, rendo-me à geometria do corpo e à beleza fugaz da rosa que desabrocha para logo fenecer. Mergulho na alma da amante com o fervor de quem busca o absoluto em um instante. Posso perder o encanto pelas linhas que o tempo relaxa, mas jamais deixo de amar o olhar . Esse olhar, que me atravessou uma vez, permanece habitando meu coração de forma indelével e indefinida. Por isso, não prometo eternidade a quem me ama; fazê-lo seria o maior...
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  Acordei o Dragão Por Lucas Adonhiramita Depois do susto, respirei fundo e me recompus. O silêncio ao meu redor parecia pesado, mas logo foi quebrado por uma voz profunda, que ecoava como trovão dentro da caverna: — Meu insolente aprendiz, o que desejas? O coração disparou. Eu havia sonhado com esse encontro tantas vezes, mas agora que estava diante dele — o Dragão, guardião dos segredos antigos — minha mente se esvaziava. As palavras que preparei se perderam na emoção. O Dragão era maior do que eu esperava. Não apenas em sua forma imponente, mas em seu significado. Ele era o espelho daquilo que eu trazia dentro de mim: os medos, os desejos, a coragem e a fragilidade. Ao acordá-lo, não despertei apenas uma força externa, mas também a chama que repousava adormecida em meu próprio coração. Confesso que só consegui balbuciar aquilo que sempre esteve em meu peito: o desejo de tudo de bom para os que amo. O pedido que imaginei, o tesouro que poderia ter exigido, simplesment...
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  O que eu tenho, o que eu sou  Por Hiran de Melo O que eu tenho? Mania — essa febre lúcida que arde sem termômetro, esse vento que sopra dentro da cabeça como se o crânio fosse uma casa antiga com janelas mal fechadas. Passo horas discutindo com uma pessoa extraordinária, dessas que não apenas discordam, mas reconfiguram o universo inteiro com a serenidade de quem troca a mobília de lugar. Ela insiste que a Terra é um prato. Eu, porém, seguro meu dado invisível e afirmo: a Terra é um dado — lançado no vazio por mãos que não vemos, rolando no pano escuro do cosmos como um jogo eterno que nunca termina. Tudo na vida é sorte, ou melhor, é risco travestido de ordem. Cada ato é um arremesso. Tentamos, tentamos, até que o seis aparece — raro, luminoso, quase milagroso. Então descansamos. Mas o descanso não é o fim: o sete é o repouso que dança, o silêncio que ainda pulsa, a pausa que respira. Ela rebate: o prato balança — e desse balanço nascem os mares, como lágrimas escorrendo d...
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  A Mulher e a Maçonaria O Salto Necessário para o Grande Oriente da Paraíba Por Hiran de Melo Há momentos na história de uma instituição em que aquilo que se apresenta como avanço precisa ser revisto com coragem. O Grande Oriente da Paraíba (GOPB) tem celebrado, com legítimo entusiasmo de seus dirigentes, diversos tratados de mútuo reconhecimento. À primeira vista, isso parece sinal de fortalecimento institucional. Mas é preciso perguntar: fortalecimento para quem — e a que custo? A condição implícita desses tratados, na maior parte dos casos, é a manutenção de um modelo de regularidade que exclui a mulher da iniciação maçônica. E é justamente aqui que se revela o paradoxo: aquilo que se apresenta como progresso carrega, em sua base, um traço de atraso civilizatório. Excluir a mulher por ser mulher não é um gesto neutro nem meramente tradicional. É uma escolha. E toda escolha institucional carrega um significado simbólico e ético. Quando uma mulher é impedida de particip...
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  O Fanatismo - A Pior das Religiões Por Hiran de Melo O mundo fala tanto de paz e tolerância, mas há uma sombra que insiste em acompanhar a fé: o fanatismo. Ele veste o manto do sagrado, mas por baixo carrega a intolerância que divide, fere e destrói. É duro admitir, mas a história da humanidade está marcada por vítimas do fervor cego — muito mais do que pela ausência de crença. Voltaire e o Iluminismo Voltaire, esse gigante do pensamento iluminista, não precisou de espada: sua arma foi a palavra. Ele ousou dizer: “O fanatismo é a pior das religiões.” Não era um ataque à espiritualidade, mas um alerta contra a deformação da fé. Para ele, quando a devoção se torna cega, deixa de elevar o espírito e passa a justificar a crueldade. Voltaire nasceu em 1694 e viveu perseguido por suas ideias. Lutou contra injustiças, censuras e dogmas. Em obras como Cândido e o Tratado sobre a Tolerância , mostrou que a razão e a liberdade de consciência são os verdadeiros caminhos para ...
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  O Paradoxo da Justiça e do Poder - Por que os Implacáveis Ascendem? Por Hiran de Melo A contradição da vida em sociedade A sensação de que o mundo favorece os piores entre nós não é apenas uma impressão subjetiva; é um paradoxo que atravessa a história. Imperadores cruéis, líderes políticos manipuladores e executivos implacáveis parecem prosperar enquanto pessoas honestas e bondosas enfrentam obstáculos. Essa realidade desconfortável nos obriga a questionar se a justiça é realmente um princípio universal ou apenas uma narrativa criada para manter a ordem social. Competição e sobrevivência Em ambientes de escassez, a competição é inevitável. Aqueles que hesitam em nome da justiça frequentemente ficam para trás, enquanto os que exploram e manipulam avançam. A moralidade, nesse jogo, pode parecer uma fraqueza. Contudo, o sucesso dos implacáveis costuma ser temporário: a história está repleta de quedas espetaculares de líderes que governaram apenas pelo medo. Nietzsche e ...