Além do Jardim – Capítulo 7

 

“O espírito da verdade vos ensinará toda a verdade”. (Jo, 16,13).

 

A informação criadora

 

Resumo

 

O artigo explora a relação entre a criação artística, a arquitetura e a espiritualidade maçônica, tomando como exemplo a obra de Oscar Niemeyer. Através da análise da obra do arquiteto e da prática ritualística maçônica, o texto busca demonstrar a presença da divindade tanto na criação humana quanto na natureza. O autor estabelece uma conexão entre a alma criadora de Niemeyer e o Grande Arquiteto do Universo, presente em todas as coisas. A prática maçônica, com seus rituais e símbolos, é apresentada como um caminho para a experiência dessa presença divina, tanto em sua transcendência quanto em sua imanência.

 

Palavras-chave: Maçonaria, Oscar Niemeyer, arquitetura, espiritualidade, Grande Arquiteto do Universo, transcendência, imanência, oração, perfeição.

 

Passeando em Brasília

 

Ao percorrer Brasília, a alma de Oscar Niemeyer parece pairar sobre cada construção. Alma no sentido de uma informação criadora. Isto é, uma informação que anima a estrutura. Seus traços inconfundíveis, presentes na Catedral, nos palácios e em tantas outras obras, revelam um arquiteto que não apenas erguia edifícios, mas também imprimia sua visão de mundo em cada projeto. Em suas criações, a arquitetura transcende a função e se torna arte, manifestando a força da imaginação humana.

 

Contemplando a Criação

 

Ao contemplar o universo, o iniciado reconhece a alma de seu Criador, referindo-se a Ele como o Grande Arquiteto do Universo. Não se trata de um novo nome para Deus, mas sim de um título que atesta a presença divina imanente em todas as coisas criadas. Deus enquanto imanência – Deus no mundo.

 

Ao orar, muitos mestres utilizam chapéus. Coberindo a cabeça, demonstram submissão e respeito ao Grande Arquiteto do Universo, em um gesto semelhante à tradição judaica.

 

No livro das Instruções para as Lojas Simbólicas lê-se: 'Considerando que nosso Rito, assim como outros, tem suas raízes em passagens bíblicas, é natural que o uso do chapéu nas Lojas seja inspirado nos costumes judaicos.' Lê-se também: 'a presença mais intensa do Grande Arquiteto do Universo é representada pelo Livro da Lei aberto.'

 

Nos três graus simbólicos da Ordem, o nome de Deus não é pronunciado. O nome de Deus é uma palavra oculta. O finito não pode abarcar o infinito, o criado não alcança o Incriado. A ausência do nome de Deus é a forma de reconhecer a natureza divina como transcendente. Deus enquanto transcendência – Deus além do mundo.

 

A Ordem, assim, acolhe as duas concepções tradicionais de Deus e abraça a síntese da cruz, proposta por Jesus e interpretada por João. No ponto de encontro entre a natureza horizontal (imanência) e a vertical (transcendência) de Deus.

 

Amados irmãos, oremos:

 

“Grande Arquiteto do Universo, fonte fecunda e imortal de luz, felicidade e virtude. Os obreiros da paz reunidos neste Templo, cedendo ao movimento de seus corações, rendem-te mil ações de graças e reconhecem ser a Ti devido tudo o que fizeram de bom, útil e glorioso nesta sessão. Continua a proteger seus trabalhos e a conduzi-los cada vez mais à perfeição. Faz que a harmonia, a paz e a concórdia sejam a tríplice argamassa que una suas obras. Amém”.

 

Nesta oração vê-se que:

 

Ø Reconhecemos, de imediato, o Grande Arquiteto do Universo como a fonte primordial de luz, felicidade e virtude. É em Deus, e não na razão humana como querem crer os iluministas do século XVIII, que se encontram a luz, a felicidade e a virtude.

 

Ø O que nos move ao reconhecimento do Grande Arquiteto do Universo como a fonte não é a razão humana, mas sim o movimento do coração inteligente.

 

Ø Os maçons oram, pedindo ao Grande Arquiteto do Universo que proteja e guie seus trabalhos rumo à perfeição. E o resultado destes trabalhos é uma obra que deverá estar ligada por uma tríplice argamassa: harmonia, paz e concórdia.

 

É uma ignomínia acusar a nossa Ordem de satanismo. Nesta oração, a ironia é evidente: como poderia Satã promover a harmonia, a paz e a concórdia, valores que são a antítese de tudo o que ele representa?

 

É comum a acusação de que, ao apontar o caminho do trabalho e ao vestir-se com aventais de trabalho, o obreiro confiaria apenas no trabalho como meio de obter a perfeição. Em outras palavras, a acusação é de que a Ordem negaria a importância da graça divina. No entanto, a própria oração evidencia a gratidão dos maçons, demonstrando a crença em uma força superior.

 

Via do Trabalho X Via da Contemplação

 

A questão da perfeição, se alcançada pela contemplação ou pelo trabalho, é um dilema antigo. Jesus, em sua sabedoria, nos ofereceu uma resposta profunda ao dialogar com Marta e Maria. Ao valorizar a atitude contemplativa de Maria, Ele não menosprezou o trabalho de Marta, demonstrando que ambas as atitudes possuem valor intrínseco. Assim como na parábola do filho pródigo, a misericórdia divina transcende tanto o trabalho quanto a contemplação.

 

A tradição cristã, através de seus teólogos e místicos, sempre ensinou que tanto a contemplação quanto o trabalho são essenciais para o crescimento espiritual. O trabalho, como ascese, prepara o terreno para a recepção da graça divina, enquanto a contemplação nos permite experimentar a profundidade do mistério.

 

Poeta Hiran de Melo - Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita - oráculo de Melquisedec, 13 de dezembro de 2010 da Revelação do Cristo.

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