Além do Jardim – Capítulo 11
A Sociedade dos Guias Antigos e Aceitos
Resumo
O
artigo apresenta uma narrativa alegórica sobre a evolução de uma sociedade
secreta. A narrativa descreve a transformação da sociedade ao longo do tempo,
desde seus primórdios como um grupo de iguais buscando a perfeição, até sua
institucionalização. O texto contrasta a pureza dos princípios iniciais com a
burocratização e o formalismo subsequentes, questionando a autenticidade da
busca pela perfeição dentro da sociedade atual. A existência de uma sociedade
secreta interior, a Sociedade Branca, é sugerida como um contraponto à
institucionalização, representando a busca por uma ética mais profunda e uma
conexão com o espiritual.
Palavras-chave:
sociedade secreta, iniciação, evolução, perfeição, espiritualidade, ética,
poder.
O Círculo
Há muito tempo que
respeitávamos a rotina e atualizávamos nossas crenças uma vez por semana.
Éramos os escolhidos, os eleitos. Havíamos provado nossa coragem e determinação
em fazer parte deste grupo. Constituíamos a Sociedade dos Guias Antigos e Aceitos.
Era apenas nosso o
conhecimento do verdadeiro caminho da humildade. Hoje, poucos dentre nós
tiveram a honra de participar do grande dia da fundação da sociedade. Não estou
entre eles.
Lembro-me do que me
foi revelado em tom tão baixo que precisava ser dito com os lábios colados ao
meu ouvido. Era a revelação de um grande segredo que só os eleitos e iniciados tiveram a honra de receber.
Estou proibido de
revelar a você ou a qualquer outro não iniciado. Mas lhe darei pistas. Quem
sabe se o seu coração não escuta e assim você poderá saber mediante ele.
Feche os olhos e
visualize, com seu terceiro olhar, um pequeno grupo de homens formando um
círculo. No centro do círculo, existe apenas um ponto no espaço. Nada mais.
Todos se mantêm
equidistantes deste ponto. É o símbolo do desejo da construção de uma sociedade
de iguais. Todos fazem um juramento solene de que os seus atos serão pautados
pela justiça e perfeição.
Observe que todos
estão vestidos na cor preta. Símbolo que detém todas as cores. Todos estão revestidos
de aventais brancos, que possuem a forma de uma seta que aponta para os céus. A
cor branca escolhida por ser o símbolo da pureza e da humildade.
No ar, pairavam poucas
palavras, mas cada uma delas era sagrada. O local do encontro era deserto e a
céu aberto. Não havia o que temer. O círculo tinha hora marcada para ser
formado e duração estritamente limitada. Não havia períodos de instruções e nem
palavra facultada. Eram encontros de corações e mentes abertas ao eterno.
O rito era sumário.
Identificação dos membros por sinais, formação do círculo, uma breve caminhada
em silêncio pelo caminho circular e formação da cadeia de união. Os corações
pulsavam em uníssono, e os céus pareciam conspirar a favor da realização do
desejo do círculo. Em seguida, cada um se dirigia ao seu lar particular.
A ampliação do círculo
Tudo corria em
perfeita harmonia até que alguém sugeriu ampliar o número de participantes.
Então o silêncio cedeu lugar ao debate. Surgiu a necessidade de criar regras
complexas de acesso à sociedade e da criação de um ritual estabelecendo o
ordenamento do uso da palavra.
A partir de agora,
você pode abrir os olhos. O que se segue é visível a todos.
Novas e complexas
exigências surgiram, como a construção de uma fortaleza para abrigar as sessões.
A sociedade passou a ser secreta e perseguida. O caminho da humildade foi sendo
esquecido. Restou como herança apenas um discurso ideológico no qual a
humildade faz um papel de justificador.
Na nova ordem da
sociedade, o círculo foi substituído pelo quadrilátero. Colunas foram erigidas,
o ocidente e o oriente foram separados. Os antigos iguais foram diferenciados
em graus simbólicos e posicionados em colunas distintas.
Os novos guias passam
por um processo de iniciação em diversos graus. Os iniciados no primeiro grau
são revestidos na forma dos antigos, com aventais brancos e as abetas voltadas
para o alto. No grau seguinte, a seta é quebrada, com a abeta voltada para
baixo. Nos graus superiores, a cor branca é esquecida e os aventais recebem
novos adereços que representam o poder, ou o desejo de poder. O novo caminho,
agora, é a busca pelo poder terreno. Todos estão livres para trilhar o caminho
do poder, cada qual segundo as suas possibilidades e seus próprios valores.
A sessão semanal,
antes dedicada à contemplação e aos encontros fraternos, agora é focada no
trabalho. Os guias passaram a ser denominados de obreiros. Como o caminho
deixou de ser a humildade, cada obreiro trilha um percurso próprio. E ninguém
conhece a verdadeira motivação de cada obreiro ao ingressar na sociedade.
Anualmente, um novo
líder é eleito para cada célula da sociedade. Sim, ela se ampliou tanto que não
é mais possível a reunião de todos os obreiros em uma única fortaleza. Ela
agora é uma Ordem, uma Obediência, uma Potência. Cada célula é dirigida por um
Venerável Guia, e a Potência, o conjunto das células, é dirigida por um Grão
Guia.
Em verdade, as
atribuições dos cargos são semelhantes ao de diretor e ao de presidente de
qualquer sociedade civil. As diferenças só se fazem presentes na direção dos
trabalhos em sessões que ocorrem nas fortalezas.
Amado Irmão Sol, Amada Irmã Lua
Ah, amados Francisco e
Clara, vejo como esta realidade se distancia da sociedade idealizada em seus
cânticos.
Amado irmão Sol, amada
irmã Lua, vossas presenças, tão primordiais, são reverenciadas em um lugar de
destaque no altar de nosso Venerável Guia. Não posso revelar-lhes o profundo
significado que essas presenças possuem para ele.
A Sociedade Branca
Rumores insistem que,
dentro da Sociedade dos Guias Antigos e Aceitos, existe uma sociedade secreta,
oculta, referenciada como a Sociedade Branca. Tão oculta que a maioria dos
obreiros desconhece a sua existência. Normalmente ela só é citada pelos escritores
profanos e especulativos.
Dizem que na Sociedade
Branca, a prancha de traçar é utilizada ativamente. Instrumentos simbólicos são
empregados para traçar segmentos de reta que, na mente, se estendem
infinitamente, tornando-se retas completas. Quando dois segmentos de reta são
traçados paralelamente, a mente os visualiza como retas infinitas que se
encontram no infinito.
A premissa central é
que existe uma profunda conexão entre corpo mental (psique) e o espírito. A psique
difere do espírito por estar vinculada ao corpo material, enquanto o espírito
transcende a matéria. No entanto, trabalhando a mente, conecta-se com o
espírito. Assim, o guia, em suas ações, busca uma ética alinhada com a
imortalidade espiritual.
A premissa é simples:
a sociedade recruta seus membros entre aqueles que são considerados livres e de
bons costumes. Assim, bastaria reforçar os princípios éticos para que cada
obreiro se tornasse um agente de transformação social, servindo como exemplo de
um indivíduo digno e respeitado. O ideal materializado do guia justo e perfeito.
Embora paradoxal, o
desconhecimento da sociedade oculta dentro da sociedade concreta não impede que
seus princípios sejam proclamados como os da Ordem. É preciso, no entanto, uma
visão mais profunda para perceber, nos símbolos estáticos do esquadro e
compasso, o movimento dinâmico que gera a perfeição da reta infinita e do
círculo original.
Poeta Hiran de Melo - Mestre Instalado,
Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita - oráculo de Melquisedec, 17 dezembro de 2010 da
Revelação do Cristo.

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