Do Profano ao Sagrado – Capítulo 06

O Sol e a Terra

 

Os antigos atribuíam ao Sol a causa da fertilidade da Terra. Principalmente aqueles que viviam em regiões nas quais existia uma estação com a presença dominante da neve. O término desta estação começava com a permanência crescente do sol no firmamento a cada dia e com o brotar de uma nova vida na Terra. Daí o surgimento dos ritos solares. E a simbologia do princípio do sagrado masculino, representado no Sol, e do princípio sagrado feminino, representado na Terra. Há quem enxergue uma identificação do Sol com Deus e da Terra com a Deusa.

 

Os poucos acostumados com a sutileza dos antigos não se apercebem de que não existe tal separação nos ritos dedicados a Deus ou à Deusa. Quem vê no Sol a representação exclusiva do sagrado masculino, separado do sagrado feminino, esquece de que o Sol é uma estrela. Esquece também que a Terra é um astro. Representa-se em uma estrela o sagrado masculino e em um astro o sagrado feminino. Por quê?

 

Para indicar exatamente a impossibilidade harmoniosa da separação!

 

As instituições que tentaram viver uma experiência de separação são protagonistas de sectarismo extremo e doloroso. Além disso, são testemunhas de cisões internas. As vozes que trovejam de seus interiores são gritos de uma profunda dor, consubstanciada em intolerância à proposta de integração do homem e de acolhida a sua inteireza.

 

Deus é único, como relembrava o profeta Maomé. O homem, como criação de Deus, é único. As manifestações de Deus e do homem são múltiplas. Deus e o homem são como um arco-íris. Eles podem ser vistos em diversas cores. Em particular, o Deus Pai e o Deus Mãe, o homem pai e o homem mãe. o Deus vigor e o Deus ternura, o homem vigor e o homem ternura.

 

Francisco e Clara são arquétipos universais da imanência, em um mesmo ser, do sagrado masculino e do sagrado feminino. As Ordens instituídas nos nomes de Santa Clara ou de São Francisco demonstram a vitalidade da inseparabilidade da Presença.

 

Ao longo de gerações, foram criadas as mais diversas simbologias para transmitir e preservar o conhecimento da inseparabilidade harmoniosa dos dois princípios. A mais simples e conhecida é o entrelaçamento do símbolo da letra V com seu símbolo invertido.


O entrelaçamento do esquadro com o compasso é outro exemplo. Há também quem veja neste entrelaçamento a inseparabilidade do princípio material do princípio espiritual. Alguns veem nessa forma de entrelaçamento a representação do progresso da supremacia do espiritual sobre o material na formação moral de um membro de uma dada sociedade.

 

Essa última interpretação dos entrelaçamentos pode gerar desequilíbrios, pois, como a Tradição nos lembra, mente sã em corpo são é fundamental. Em outras palavras, é preciso cuidar do corpo material, onde construímos um templo espiritual para a Presença. É preciso estar atento às exigências de um corpo saudável e assim evitar as corrupções espirituais. E vice-versa.


Algumas das organizações fundadas no século XVIII, com o objetivo de levar a luz em oposição às trevas impostas pela força reacionária e defensora do separatismo, constituíram-se, inicialmente, representantes tardios de instituições estruturadas nas representações das simbologias do entrelaçamento do esquadro e do compasso. No entanto, é fácil observar em muitos de seus atuais membros uma formação pautada na exclusão do sagrado feminino, com o lamentável resultado decorrente. Em geral, são indivíduos dilacerados e raivosos, cheios de rancores e intolerância. É preciso reconhecer, porém, que são mais vítimas do que autores dessas organizações.


Não se separa, sem um alto custo, o que Deus uniu em sua gênese. Na escolha entre a árvore da vida e a árvore do conhecimento, o Tentador estará sempre presente, tentando-nos a repetir a escolha de Adão.

 

Amados, a Tradição recomenda que tenhamos o olhar de uma pomba, voltado para o Alto, e não o olhar da serpente, voltado para baixo.

 

Lembremos sempre: no princípio, Deus criou o homem e a mulher, à sua imagem, um ser concebido nos dois princípios sagrados. Isso significa que, em cada mulher e em cada homem, habita um ser inteiro.

 

Lembremos também que a Igreja, no século III, separou-se dos princípios masculino e feminino, pagando um alto preço por essa separação. No entanto, ela vem, lenta e gradualmente, se redimindo desse erro. Inclusive, instituiu a família sagrada de José. Há quem afirme que levará séculos, mas a Igreja acabará por reconhecer a família sagrada de Jesus. Por fim, o homem inteiro acolhe a mulher como companheira, não como complemento, mas para construir uma família.

 

Poeta Hiran de Melo - Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita - oráculo de Melquisedec, ao Vale do Mirante, 4 de janeiro de 2008 da Revelação do Cristo.


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