Do Profano ao Sagrado – Capítulo 15
Ser Maçom
Este caso
aconteceu no início deste ano. Fiz algumas viagens a capital do Rio Grande do
Norte, para tratar de assuntos pessoais. Na ocasião recém ingresso na ordem
maçônica, lendo muito sobre a história leis e regulamentos, e já apaixonado
pelos seus princípios doutrinários e filosóficos, fui convidado por meu cunhado
para ir a uma festa de aniversário na residência de um amigo, que tinha um
irmão maçom.
Não recusei. Até
comprei um presente para o “desconhecido” aniversariante, pois não queria
chegar em sua casa, com as mãos abanando. Para ele levei o livro “O MONGE E O
EXECUTIVO”, de JAMES C. HUNTER, que trata da essência da liderança, abordando
temas de extrema importância para quem convive com pessoas de pensamentos mais
diversos e pretende entender a natureza humana e se fazer entendido.
Ao chegar na casa
do aniversariante fui apresentado por meu cunhado, pedi desculpa por ter
chegado sem ser convidado e lhe presenteei o livro justificando o porquê
daquele presente. O aniversariante falou que nunca havia recebido livros de
presente, e demonstrando gratidão pelo meu gesto falou que iria ler e entraria
em contato comigo para fazer algum comentário sobre a leitura.
A festa estava
bastante animada, regada com muita bebida, frutos de mar, churrasco e pagode.
Próximo do final
da festa o aniversariante, de pileque, se aproximou de mim e começamos a
conversar sobre diversos assuntos. Ele me falou que era comandante de uma
embarcação de pesca e que uma vez por mês viajava e ficava aproximadamente 20
dias em alto mar. Questionado sobre todo esse tempo longe da família ele me
falou que nas ultimas viagem sentiu muita falta de seu irmão mais velho que
havia morrido, vítima de uma bala perdida, em uma troca de tiros entre policiais
e traficantes no Rio de Janeiro.
Nesse momento meu
cunhado interrompeu a conversa e me falou que o falecido irmão era maçom, e que
eu havia ingressado recentemente na maçonaria. Quando o aniversariante ficou
sabendo que eu era da ordem ficou pálido e tremulo. Preparou uma dose dupla e
“emborcou”. Enxugando a boca com a manga da camisa, me fulminou com um olhar de
ódio e disse para todos ouvirem que eu fazia parte do grupo de canalhas que
abandonaram seu irmão, por mais de quinze dias, em uma geladeira do necrotério
do Rio de Janeiro e não fizeram nada por ele.
Com meu pouco
conhecimento sobre os procedimentos em situações desta natureza, tentei
defender a ordem, mas devido ao visível estado de embriagues e emocional que se
encontrava aquela criatura, nenhum dos meus argumentos foram suficientes para
apaziguar os ânimos daquele homem que, enquanto chorava a perda do seu mais
velho irmão ME AGREDIA COM PALAVRAS.
Nesse momento
entrou em ação a turma do “deixa disso”, e conseguiram levar o “exaltado” para o
jardim da casa, onde tinha um chuveiro, e lá deram um banho para tentar
diminuir o efeito do álcool. E lá ficou ele, sentado no piso do jardim, bem
abaixo do chuveiro, chorando feito uma criança. Aos poucos o choro foi se
transformando em soluços e por fim ele parou de chorar e ao tentar se levantar
escorregou e bateu com a cabeça em um vaso de plantas, desmaiando.
Imediatamente
coloquei-o em meu carro e levei até um hospital próximo, onde foi atendido por
um excelente médico, que fez Raio X e o medicou. Enquanto estava sendo
observado, contei a história ao médico e ele, o médico, se identificou com
sinais, três toques com a caneta em seu bureau, e disse ao seu paciente que o
verdadeiro maçom nunca abandona um irmão ou um profano em seus momentos de grandes
dificuldades, enquanto que meu cunhado que havia nos acompanhado disse que
quando comecei ser AGREDIDO ele esperava que eu revidasse também com agressão e
não daquela maneira serena e lúcida que me portei. Eu prontamente respondi que
após algumas leituras doutrinárias e filosofias e ingresso na ordem passei a
pensar e agir de forma mais racional e a entender melhor o interior do ser
humano.
Alguns meses após
o ocorrido voltei à Natal e desta vez presenteei o “exaltado” com um conto
tibetano que é uma analogia ao fato que acabo de citar. O conto é conhecido por
“O MONGE MORDIDO” ou “CADA UM NA SUA”.
O “exaltado”,
agora mais calmo leu o conto, me pediu desculpas pelo vexame, me agradeceu, e
hoje somos bons amigos.
O conto ao qual
me refiro encontrei no Site do Centro Educacional Leonardo da Vinci passo a
transcrever na íntegra:
“Um monge e seus
discípulos iam por uma estrada e, quando passavam por uma ponte, viram um
escorpião sendo arrastado pelas águas. O monge correu pela margem do rio,
meteu-se na água e tomou o bichinho na mão. Quando o trazia para fora, o
bichinho o picou e, devido à dor, o homem deixou-o cair novamente no rio. Foi
então à margem, tomou um ramo de árvore, adiantou-se outra vez a correr pela
margem, entrou no rio, colheu o escorpião e o salvou. Voltou o monge e
juntou-se aos discípulos na estrada. Eles haviam assistido à cena e o receberam
perplexos e penalizados”.
- Mestre deve
estar muito doente! Porque foi salvar esse bicho ruim e venenoso? Que se
afogasse! Seria um a menos! Veja como ele respondeu à sua ajuda, picou a mão
que o salvara! Não merecia sua compaixão!
O monge ouviu
tranqüilamente os comentários e respondeu:
- ELE AGIU
CONFORME SUA NATUREZA, E EU DE ACORDO COM A MINHA.
Observações: Se
todos nós maçons, passarmos a agir de forma racional, de acordo como manda a
NATUREZA MAÇÔNICA tratando e respeitando o ser humano como irmão, lapidando as
pedras brutas que encontrarmos no caminho certamente construiremos um mundo
melhor. Pois a MORAL, a prática das VIRTUDES e o RESPEITO aos DEVERES são os
alicerces fundamentais da maçonaria na busca de um mundo melhor.
A Maçonaria não
considera possível o progresso senão na base de respeito à personalidade, à
justiça social e a mais estreita solidariedade entre os homens. A maçonaria nos
oferece a possibilidade do aperfeiçoamento, da instrução e da disciplina de
conviver com pessoas que, por suas palavras, por suas obras, podem
constituir-se em exemplos a serem seguidos.
João Araújo de Farias, Mestre
Instalado, Campina Grande, 9 de outubro de 2007.
Comentários
Postar um comentário