Do Profano ao Sagrado - Capítulo 16


Testemunho de uma iniciação maçônica

Na nossa iniciação maçônica, além do número exagerado de juramentos - os quais nossa formação cristã não recomenda - o que mais nos causou estranheza foi a palavra ‘profano’. Poderia até dizer com propriedade que recebemos um grande choque.

Quanto ao número de juramentos temos observado a redução do mesmo, com tendência a estacionar a um para cada grau iniciático. E isto apenas para não modificar os sinais referentes ao estado de “Em pé e à Ordem”. Observemos ainda que no Rito Alemão praticado no Grande Oriente da Paraíba o “eu juro” foi substituído pelo “eu prometo”. A diferença é grande, no “eu prometo” invoca-se apenas um testemunho humano; no “eu juro” invoca-se a presença da divindade.

É bom também destacar que o antigo juramento – a exemplo do Rito Escocês Antigo e Aceito - realizado no final das sessões maçônicas de “nada revelar de tudo quanto aqui se passou”, foi substituído por uma simples recomendação. Enfim, há uma crescente conscientização da falta de efetividade de juramentos.

O “tudo quanto aqui se passou” há muito já estar revelado nos rituais maçônicos, hoje escritos e ao alcance de todos. Basta acessar a internet. Para sermos exatos todos estes juramentos de não revelação aplicam-se tão somente aos obreiros colados em graus inferiores. Por exemplo, o que se passa em Câmara do Meio não deve ser revelado aos obreiros colados nos Graus de Aprendiz e Companheiro.

Um profano? Foi preciso estudar bastante para entendermos um pouco o significado do termo.

Para um maior entendimento recomendamos a leitura do livro do Professor Mircea Eliade: “O Sagrado e o Profano – a essência das religiões”. Outra fonte de reflexão é o livro do Professor Jesus Hortal: “Maçonaria e Igreja: conciliáveis ou inconciliáveis? ”. Ao longo da atual peça de arquitetura estas e outras preciosas fontes do conhecimento técnico serão utilizadas diversas vezes sem, necessariamente, citações explícitas. Isto apenas para tornar o texto mais fluente, vez que nem sempre utilizamos os conceitos presentes nas fontes na forma original. Explicar as diferenças tornaria o texto muito longo. Assim não há intenção de plágio e nem de distorção. Este não é um trabalho acadêmico. Não existe defesa de uma tese. Não propomos um debate. É apenas um testemunho de amor.

É correto dizer que o homem toma conhecimento do sagrado por que este se manifesta, se mostra como algo absolutamente diferente do profano. A primeira definição - proposta pelo Professor Mircea Eliade, ilustre estudioso das manifestações da religiosidade - que poderemos dar ao sagrado é que ele se opõe ao profano. Ao ato da manifestação do sagrado foi proposto o termo HIEROFANIA: algo de sagrado se nos manifesta.

Pode-se dizer que a história das religiões é constituída pelo número considerável de hierofanias, pelas manifestações das realidades sagradas. A partir da mais elementar hierofania – por exemplo, a manifestação do sagrado em um objeto qualquer, em uma pedra ou uma árvore – e até a hierofania suprema, que é para um cristão, a encarnação de Deus no homem Jesus, o Cristo, não existe solução de continuidade (não existe separação das partes).

Encontramo-nos diante do mesmo ato misterioso: a manifestação de “algo de ordem diferente” – de uma realidade que não pertence ao nosso mundo – em objetos que fazem parte do mundo que estamos acostumados a considerar o natural.

O Professor Mircea Eliade nos alerta que o homem ocidental moderno experimenta um sentimento estranho diante de inúmeras manifestações do sagrado: é difícil para ele aceitar que, para certos seres humanos o sagrado possa se manifestar em pedras ou árvores, por exemplo. Mas, como sabermos, não se trata de uma veneração da pedra como pedra, de um culto da árvore como árvore.

A pedra sagrada não é observada com uma pedra, mas justamente porque é hierofania, porque "reve­la" algo que já não é pedra, mas o sa­grado. O lugar a onde os irmãos se reúnem semanalmente é sagrado por que se apresenta como uma hierofania.

O professor Mircea Eliade enfatiza que nunca será demais insistir no paradoxo que constitui toda hierofania, até a mais elementar. Manifestando o sa­grado, um objeto qualquer se torna outra coisa e, contu­do, continua a ser ele mesmo, porque continua a partici­par do meio cósmico envolvente.

Um Templo Maçônico nem por isso é menos que uma edificação; aparentemente nada o distingue de todas as demais edificações. Para aqueles a cujos olhos um Templo Maçônico se revela sagrado, sua realidade imedia­ta transmuda-se numa realidade sobrenatural. Em outras palavras, para aqueles que têm uma experiência iniciática maçônica, toda a Natureza é suscetível de revelar-se como sacra­lidade cósmica.

O homem das sociedades arcaicas (antigas) manifesta a tendência para viver o mais possível no sagrado ou muito perto dos objetos consagrados. Os autênticos maçons modernos conservam esta tendência. Por esta e outras razões se reúnem periodicamente no Templo. Essa tendência é compreensível, pois para os antigos, como para os homens de todas as sociedades pré-modernas, o sagrado equivale ao po­der e, em última análise, a realidade por excelência. O sagrado está saturado de ser. Potência sagrada quer dizer ao mesmo tempo realidade, perenidade e eficácia.

A oposição “sagrado X profano” traduz-se muitas vezes como uma oposição entre real e irreal ou pseudo-real (na dualidade hindu: real e ilusão). É, portanto, fácil de compreender porque o maçom deseje profundamente ser, participar da realida­de, saturar-se de poder.

Nesta Arquitetura Maçônica nos ocuparemos de explicitar a razão porque o maçom se esforça por manter-se o máximo de tempo possível num universo sagrado. E, consequentemente, como se apresen­ta sua experiência total da vida em relação à experiência do homem privado de sentimento religioso, do homem que vive, ou deseja viver, num mundo dessacralizado, profano.

É bom lembrar que o mundo profano na sua to­talidade, o Cosmos totalmente dessacralizado, é uma descoberta recente na história do espírito humano. Não é nossa tarefa, assim como também não é a do Professor Mircea Eliade na fonte já citada, mostrar como o homem moderno dessacralizou seu mundo e assumiu uma existência profana. Para o nosso propósito basta constatar que a dessacralização caracteri­za a experiência total do homem não-religioso das socie­dades modernas, o qual, por essa razão, sente uma difi­culdade cada vez maior em reencontrar as dimensões existenciais do homem religioso das sociedades antigas. Dimensões estas que a Maçonaria conserva e oferece ao cidadão que seja livre e de bons costumes.

Uma vez explicitados os nossos principais referenciais teóricos relativos ao sagrado e ao profano, ver Bibliografia de Referência no final do livro, passaremos a tratar das questões que despertam o interesse do maçom.

Ao entramos em uma loja maçônica encontramos o sagrado portal constituído pelas colunas B & J. É o limiar que separa o sagrado do profano. Para o maçom, diferentemente do que entende o homem profano, o espaço não é homogêneo. Para o maçom o Templo faz parte de um espaço diferente da rua na qual ele se encontra.

A porta que se abre para o interior do Templo significa de fato uma solução de continuidade (uma ruptura), um limiar. O limiar que separa os dois espaços indica ao mesmo tempo a distância entre os dois modos de ser, profano e religioso. As Colunas B & J são ao mesmo tempo o limite, a baliza, a fronteira que distinguem e opõem dois mundos – e o lugar paradoxal onde estes dois mundos se comunicam, onde se pode efetuar a passagem do mundo profano para o mundo sagrado.

As Colunas B & J - o portal - mostram de maneira imediata e concreta a solução de continuidade do espaço; daí a grande importância maçônica do portal, porque se trata de um símbolo e, ao mesmo tempo de um veículo de passagem.

Lembrando que o limiar tem os seus guardiões, físicos e espirituais, que proíbem a entrada tanto aos adversários humanos quanto às potências corruptoras. Possui também o guardião moral, qual seja o compromisso assumido pelo obreiro de não revelar aos profanos os sinais, palavras e toques que atestam as qualidades maçônicas do seu portador e permitem que a porta do Templo seja aberta. Aliás, são estes os segredos da Maçonaria que não devem ser revelados. Sobre as demais coisas exigirmos apenas descrição. Não é por outra razão que muitos afirmam que a Maçonaria não é uma sociedade secreta, mas apenas discreta.

Em poucas palavras: o segredo da Obediência é tão somente um guardião moral das Colunas J&B, que se realiza na forma de um compromisso ou juramento de não revelar o código de passagem, de acesso.

Finalmente, o que esperamos é que ao termino de uma sessão maçônica cada irmão passe pelo limiar cheio do sagrado, o que vale dizer pleno do ser, do real, do poder de Deus. E por assim estar possa contribuir para transformar o mundo.

Ampliar o cosmo e, consequentemente, reduzir o caos.

Levar a luz e, consequentemente, reduzir as trevas.

Poeta Hiran de Melo - Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita - oráculo de Melquisedec, ao Vale do Mirante, 30 de dezembro de 2007 da Revelação do Cristo.

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog