Do Profano ao Sagrado – Capítulo 07
Iniciação e Evasão
Normalmente designa-se por evasão o índice que mede
o número relativo de desistências dos participantes de uma dada missão. Assim,
por exemplo, temos a taxa de abandono escolar que designa a percentagem de
alunos que desistem de concluir um dado curso. Desconheço a atual taxa de
evasão maçônica no Grande Oriente da Paraíba. No entanto, suspeito que o índice
de desligamento de membros desta potência maçônica seja elevado.
É consenso entre muitos estudiosos que as falhas na
seleção dos candidatos contribuem significativamente para os altos índices de
evasão maçônica. Concordo com essa premissa, contudo acredito que outros
fatores também influenciem esse cenário.
Há ainda outros dois aspectos, de natureza mais
delicada, que raramente são discutidos: a cerimônia de iniciação e o
acompanhamento do neófito. Tenho observado que, por mais dedicados que sejam os
mestres, muitas iniciações são realizadas em condições que comprometem a sua
efetividade.
A precariedade se manifesta em três pontos
principais: falta de materiais adequados (como ferramentas insuficientes para
todos os candidatos); ausência de mestres experientes para auxiliar a sessão
magna; e a “necessidade” de concluir os trabalhos rapidamente, o que pode
comprometer a profundidade do ritual.
O acompanhamento dos novos membros, em sua essência,
é bastante limitado. Os aprendizes maçônicos, na maioria das vezes, recebem
instruções focadas nos símbolos e nos rituais. É comum notar que esses são os
assuntos que mais atraem o interesse dos maçons na internet. Seria possível
mudar essa realidade?
A iniciação maçônica
A iniciação maçônica convida o indivíduo a
transcender sua natureza inferior, para que possa emergir o ser superior que já
habita em seu interior. Esse processo é simbolizado pelo desbastamento da pedra
bruta, ou seja, pelo controle do ego e pela busca pelo autoconhecimento. A
expressão maçônica "construir templos à virtude e masmorras ao vício"
resume essa jornada interior. A tradição, por sua vez, sintetiza esse processo
com a sentença: "morre e torna-te o que és”.
A iniciação maçônica propõe uma jornada de
autodescoberta que culmina na realização do ser autêntico. Essa jornada é
marcada pela experiência numinosa, um estado de consciência alterado que
permite transcender os limites do ego. No entanto, como adverte Jean-Yves
Leloup, a experiência numinosa, se não for acompanhada por uma profunda
transformação interior, pode se tornar uma armadilha, servindo apenas para
inflar o ego e não para libertá-lo.
Esta experiência, caracterizada por um sentimento de
transcendência e conexão com algo maior, visa desconstruir o ego e permitir o
florescimento do verdadeiro ser.
É lamentável constatar que muitos maçons, mesmo
atingindo o grau de mestre, não incorporam os ensinamentos da Ordem. A
iniciação, nesse contexto, se torna uma experiência vazia, inflando o ego em
vez de conduzir à iluminação. É como ouvir alguém repetir "vaidade,
vaidade, tudo é vaidade" sem que essas palavras tenham qualquer
significado prático. Surge, então, a indagação: qual o propósito de uma
iniciação que não transforma o indivíduo e não o leva a uma profunda
autoquestionamento?
De que adianta uma iniciação se ela se resume a
alimentar o ego, transformando-nos em colecionadores de experiências
superficiais e de títulos que pouco significam? A busca por reconhecimento
externo, por diplomas e aventais, obscurece o verdadeiro propósito da
maçonaria.
Ao transformar a pertença a maçonaria em uma mera
coleção de experiências superficiais, perdemos de vista seu verdadeiro
propósito: o crescimento interior e a busca pela sabedoria.
A condição de
pertença a Ordem
A iniciação maçônica destina-se a resolver nossos
problemas ou a nos permitir uma vida nova, avançando através deles? A tradição
nos ensina que o oásis só é alcançado atravessando o deserto. A maior tragédia
para um maçom é acreditar que já alcançou seu objetivo enquanto ainda está em
meio às provações!
Diante de uma situação complexa, como esperar que o
aprendiz maçom encontre sozinho as respostas para questões tão vitais? A
resposta mais comum que escuto é: "Livre instrução!". O que vemos com
frequência é um obreiro, cheio de entusiasmo, buscando respostas em livros e na
internet. Sem a orientação de um mestre, essa busca se torna um caminho
incerto.
A resposta padrão, “Meus Irmãos como tal me
reconhecem”, que é oferecida ao questionamento da condição de pertença a uma
Ordem Maçônica, informa que a essa condição maçônica precisa ser reconhecida pelos
demais membros regulares.
Quando um maçom busca a validação constante de sua
condição, ele questiona sua própria capacidade de discernimento e interpretação
dos princípios maçônicos. Se a confirmação externa é tão essencial, por que
defender a livre instrução como pilar fundamental da Ordem?
Por fim
A evasão pode ser um indicador da adequação do
caminho percorrido, sugerindo que nem sempre quem desiste fez a escolha errada.
Reconhecer a incapacidade de atravessar o deserto é uma decisão sensata. Por
outro lado, o alto índice de ausências e impedimentos legais é prejudicial para
as organizações maçônicas. Nada é mais nefasto do que um grande número de
obreiros com baixo índice de comparecimento às sessões da loja.
Exortação
Que o Grande Arquiteto do Universo nos ilumine na
Pura Luz, a fim de que possamos trilhar nossos caminhos maçônicos com
sabedoria, coragem e fraternidade. Que cada um de nós encontre o equilíbrio
entre a jornada individual e a participação ativa na Loja, buscando sempre o
aprimoramento pessoal e o bem-estar da comunidade.
Poeta Hiran de Melo - Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e
Noaquita - oráculo de Melquisedec, ao Vale do Mirante, 24 de janeiro de 2008 da
Revelação do Cristo.
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