Do Profano ao Sagrado – Capítulo 04
O Homem Interior
No artigo “Iniciação e Evasão”, foi feita uma breve
introdução sobre as causas da existência do alto índice de evasão de obreiros
nas organizações maçônicas iniciáticas. Recebi, com gratidão, uma mensagem
imediata do Mestre Kalaf, repleta de ensinamentos e aprofundando a questão da
escolha do candidato. Nessa mesma mensagem, o Mestre Kalaf traça um quadro
bastante duro, mas realista, das consequências de uma escolha inadequada dos
candidatos à iniciação. Nessa mensagem histórica, o Mestre Kalaf demonstra sua
nobreza ao desvelar nossos “segredos”.
“O candidato, na maioria das vezes, é
convidado sem o mínimo de instrução sobre o que se espera dele como profano e
depois como Maçom. Após a iniciação, ou melhor, ao simplesmente pertencer a uma
organização que não lhe dá respaldo psicológico para entender seus vínculos, o
iniciado passa a contemplar não as virtudes, mas sim os erros tão comuns em nós
humanos. Assim, acomodado no banco da pseudo-aprendizagem, espera
pacientemente, entre um ágape e outro, atingir os graus subsequentes e aí sim,
ostentar o avental de Mestre. Mestre sem nada saber, na maioria das vezes,
mestres vazios. A Pedra Bruta que já continha o homem burilado, faltando apenas
alguns retoques aqui e acolá, continua a ser a mesma”.
Diante desse cenário, a questão que se coloca é:
como superar essa grande dificuldade?
Na mensagem do Mestre Kalaf encontra-se implícita a
sugestão do aperfeiçoamento dos métodos da escolha de candidatos. No artigo que
propiciou o diálogo, também, encontram-se as sugestões de: aumentar a qualidade
das sessões magnas (iniciação, elevação e exaltação), não tendo pressa em terminar
a sessão; convidar para estas sessões magnas apenas irmãos firmemente
interessados no progresso da organização; focar todo o trabalho no objetivo de
propiciar uma experiência numinosa e o acompanhamento do obreiro por um mestre
representativo da Ordem.
Na mensagem do Mestre Kalaf, encontra-se implícita a
sugestão de aperfeiçoar os métodos de seleção de candidatos. O artigo que
propiciou o diálogo também apresenta sugestões como: aumentar a qualidade das
sessões magnas, sem pressa em finalizá-las; convidar apenas irmãos engajados no
progresso da organização; e focar em proporcionar experiências numinosas e
acompanhamento individualizado aos obreiros.
O homem burilado a que o Mestre Kalaf se refere tem
recebido outras designações, como: o homem nobre, o homem crístico, o homem
interior, o homem desperto, o homem celestial, o homem justo e perfeito, o
maçom etc. A proposta de revelar o homem interior, a partir do desbaste da
pedra bruta, faz uma alegoria a uma obra de arte que já existia na
matéria-prima e que o trabalho do artista consistiu em revelar.
Neste contexto, o famoso segredo guardado pelas
organizações maçônicas iniciáticas seria o método utilizado para desbastar a
pedra bruta e revelar o maçom latente em cada obreiro.
Este método maçônico estaria guardado na simbologia
dos instrumentos dos maçons operativos e dos carpinteiros. Para acessá-lo, o
obreiro precisaria, preliminarmente, ser livre e de bons costumes, além de
possuir a hermenêutica adequada à interpretação dos símbolos maçônicos.
Neste ponto, observa-se uma situação grave: os
métodos de seleção não conseguem determinar se o candidato possui a
hermenêutica apropriada para a iniciação. Como garantir que isso ocorra antes
de iniciar sua instrução?
É interessante e curioso observar que, apesar do
convite à livre instrução presente nos manuais maçônicos, encontramos o
catecismo maçônico. Constituído de perguntas e respostas, este apresenta a
doutrina elementar das organizações maçônicas simbólicas. No catecismo
maçônico, encontra-se subjacente e de fácil visualização o método maçônico
proposto para desbastar a pedra bruta, que consiste em observar preceitos
morais de modo a construir um templo à virtude e uma masmorra ao vício.
Aparentemente, é uma proposta que contempla uma
antropologia laica, mas ecoa os fundamentos religiosos dos fariseus. É fácil
observar o grande número de obreiros que, mesmo no grau de mestre, são escravos
do tabaco ou do álcool, consumidos "socialmente".
Como sabemos, os conceitos de salvação e cura, no
grego antigo dos evangelhos, são expressos por uma única palavra. Em diversas
passagens, os evangelistas registram que a fé em Jesus cura e salva, liberando
o indivíduo do medo e da dor. Essa conexão entre cura e salvação é um tema
comum em diversas tradições, que apontam caminhos para a revelação do homem
interior. A materialização de Cristo por Jesus exemplifica essa busca pela
libertação.
Reconhecendo a fragilidade da via farisaica, a
Tradição introduziu nas organizações maçônicas a via iniciática visando
propiciar ao obreiro uma experiência numinosa e a possibilidade da aplicação da
anamnese. Conforme nos informa o professor Leloup, “a anamnese é um processo
pelo qual o homem lembra-se do Ser que ele É e continua sendo (o homem
interior) durante uma breve abertura proporcionada pelos momentos numinosos de
sua existência”.
Nesse contexto, as organizações iniciáticas
maçônicas só podem realizar sua missão se de fato proporcionarem aos seus
obreiros sessões magnas que se constituam em experiências numinosas genuínas.
Caso contrário, o obreiro estará restrito à via farisaica, com resultados
incertos e muitas vezes denunciados por Jesus.
O respaldo psicológico que reclama o Mestre Kalaf só
poderá ser proporcionado após uma experiência numinosa, uma experiência de
abertura para o Ser essencial. Se um homem, que participa de uma iniciação
maçônica, sair igual ao que entrou, jamais poderá ter olhos que enxerguem e
ouvidos que escutem o apelo de abertura para a revelação do maçom que nele
habita.
Infelizmente, faz parte ou fará parte da categoria
de obreiros, citada pelo Mestre Kalaf, que se revestem "garbosamente com o
avental de Mestre" e não buscam um conhecimento mais profundo. É
importante lembrar que a tradição afirma que o sábio é aquele que reconhece
suas limitações, enquanto o ignorante acredita saber tudo.
Que tal um teste simples? Pergunte a um obreiro se
ele é a favor da iniciação feminina ou aborde qualquer outro tema controverso.
A forma como ele responderá revelará muito sobre sua maturidade como maçom.
Refiro-me à forma, não ao conteúdo da resposta.
O tema do desbaste da pedra bruta é vasto e merece
uma discussão mais aprofundada. Retornarei a ele em breve, com a colaboração
dos irmãos, para uma análise mais completa. Como ponto de reflexão, deixo-lhes
as palavras do Mestre Eckhart:
“Antes de tudo,
devemos saber – eis o que é ensinado pela Revelação – que, no homem, existem
duas naturezas: o corpo e o espírito. É a razão pela qual está dito na Sagrada
Escritura: quem se conhece a si mesmo, conhece todas as criaturas porque estas
são ou corpo ou espírito. Assim, ao falar do homem, a Sagrada Escritura afirma
que, em nós, ele é um homem exterior e homem interior”.
Poeta Hiran de Melo - Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita - oráculo
de Melquisedec, ao Vale do Mirante, 26 de janeiro de 2008 da Revelação do
Cristo.
Anexo: Questões às Reflexões
A experiência com o numinoso
Como podemos criar rituais e experiências que
promovam a vivência de momentos com o numinoso nas Lojas?
Quais os desafios e obstáculos que enfrentamos ao
tentar proporcionar essa experiência aos nossos irmãos?
Como podemos avaliar a eficácia dessas experiências
em promover a transformação interior?
O papel do mestre
Qual o papel do mestre nesse processo de desbastar a
pedra bruta?
Como o mestre pode auxiliar o aprendiz a encontrar
seu próprio caminho e a desenvolver sua intuição?
Quais as qualidades e competências necessárias para
ser um mestre eficaz?
A importância da comunidade
Como a comunidade maçônica pode contribuir para o
crescimento pessoal e espiritual de seus membros?
Quais os valores e princípios que devem nortear as
relações interpessoais dentro da Loja?
Como podemos criar um ambiente propício para o
diálogo, o aprendizado mútuo e a troca de experiências?
A atualização dos métodos
Como podemos atualizar os métodos tradicionais da
Maçonaria, sem perder de vista os seus princípios fundamentais?
Quais as novas ferramentas e recursos que podemos
utilizar para facilitar o aprendizado e o desenvolvimento pessoal?
Como podemos adaptar os ritos e os símbolos
maçônicos às necessidades e expectativas dos maçons contemporâneos?
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