O livro de Iohanan – Prólogo ao conhecimento do sagrado

Capítulo 7

Antes que Abrão fosse, Eu Sou.

 O Livro de Iohanan contém os pontos essenciais do que a Tradição Gnóstica denomina o querigma: descida do Espírito Santo para designar o Mestre Yeschua como o Messias; os sinais (curas e milagres); morte, ressurreição e aparições aos discípulos mais íntimos e; a missão confiada aos apóstolos. Além do querigma, também presente nos outros três evangelhos aceitos pela Igreja como sinóticos, o Livro de Iohanan apresenta a Gnose que revela o sentido da vida, dos gestos e das palavras do Mestre Yeschua. Também é importante observar que a Gnose é apresentada na forma cultual e sagrada, revestida da ritualística judaica.

 Na introdução ao Engelho de São João, O Livro de Iohanan, contida na Bíblia de Jerusalém, lê-se: “Para São João, Jesus (Yeschua) é o verbo feito carne, que veio dar a vida aos homens. O mistério da encarnação domina todo o seu pensamento. Jesus é a palavra enviada por Deus a terra e que deve regressar a Deus uma vez cumprido a sua missão. Ora esta missão consiste em anunciar aos homens os mistérios divinos: Jesus é o testemunho do que viu e ouviu junto ao Pai”.

 Iohanan lembra-se que o outro, o Batista, a voz que clama no deserto, dá o seu testemunho da luz encarnada no Mestre Yeschua, declarando que foi para ele que preparou o caminho. E afirma a pré-existência de Yeschua no momento da criação do mundo. Esta afirmativa foi confirmada posteriormente pelo próprio Mestre Yeschua para escândalos dos doutores no Thora: “Antes de Abrão fosse, Eu Sou”.

15. Iohanan dá testemunho dele e clama: Este é aquele de quem vos disse: “O que vem depois de mim, passou adiante de mim, porque existia antes de mim”.

16. Depois de sua plenitude todos nós recebemos, graça e graça.

17. A Thora nos foi dada por Moshé. A graça e a verdade vieram por Ieschua, o Messias.

 Antes a graça da criação, depois a graça do registro da palavra criadora de Deus na forma do Thora (via Moshé) e finalmente a graça da encarnação do Logos no Mestre Yeschua.

 Na atualidade, o mestre Leloup comenta este versículo lembrando que ao transmitir o Thora – normas e pontos de referências - Moshé o fez para que reencontremos nossa própria natureza e a conformidade com os desígnios de Deus. Por outro lado, ao encarnar a Thora, ao viver a essência dos seus preceitos, o Mestre Yeschua mostra-nos a graça e a verdade que ela contém. Nas palavras do Mestre.

- Não vim abolir, mas completar.

 O Mestre Yeschua ilumina a Thora por dentro, vivendo-o como uma expressão do amor (justiça com amor); sua obediência não é servil, mas filial; é plena de graça; ele responde ao amor pelo amor, à gratuidade pela gratuidade. E no título o Messias, o Cristo, o Urgindo, supõe-se aquele que é urgido (o Filho), aquele que unge (o Pai) e a unção (o Pneuma). Ou seja, a tríplice manifestação do Deus único.

18. Ninguém jamais viu a Deus. O Filho unigênito que está junto do Pai, foi quem no-lo deu a conhecer.

 Neste último versículo do seu canto, Iohanan testemunha o caráter inacessível e incompreensível de Deus. Este testemunho está alicerçado no Thora nas passagens: “Ninguém jamais viu a Deus”, “Não se pode ver a Deus sem morrer” e “Deus mora em uma luz inacessível que nenhum homem viu, nem pode ver”.

 O mestre Leloup lembra que tudo que sabemos de Deus é sempre um homem que diz, e ele o diz a partir de sua experiência, a partir do que sentiu. Recoloca a questão relativa à experiência do Mestre Yeschua: “será que estava no seu corpo ou fora dele?” E responde: “Pode-se dizer que no caso de Yeschua estava em seu corpo e, ao mesmo tempo fora dele. O Filho unigênito armou a sua tenda entre nós e ao mesmo tempo estava junto ao Pai”.

 O Concílio de Calcedônia confirma a profissão de fé: “Jesus Cristo é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, sem confusão, nem separação”. Neste contexto, a contemplação do inacessível pode ser feita no cotidiano: o corpo do homem é o templo de Deus.

 O teólogo Máximo, o confessor, ensinou que a morte e a ressurreição contêm todos os mistérios. Mais tarde, contemplando os mistérios dos universos e as suas possíveis leis, Einstein confessa: “O mistério não é que o mundo seja incompreensível, mas que o mundo – de tempos em tempos – seja compreensível”.

 O mistério, como dirá o mestre Leloup, não é que Deus seja inacessível, mas que esteja perto e, ao mesmo tempo, seja estas duas coisas: transcendente e imanente.

 Sem pretender ser uma religião e nem substituir a Igreja, as organizações maçônicas preceituam aos seus obreiros a construção do Templo de Deus no próprio homem (construção do templo interior no movimento de desbastar a pedra bruta).

 Construção simbólica que equivale à retirada do véu do mistério que esconde a dupla natureza do homem: profana (no sentido de estar no mundo) e divina (no sentido que o Logos é a palavra que revela o Oriente ao homem).

 Nas antigas comunidades joaninas – que sofriam a influência de saber revelado no Livro de Iohanan - as reuniões eram abertas com a leitura ou o cântico do prólogo, objetivando purificar a inteligência e o coração.

 As organizações iniciáticas maçônicas que operam no Rito Escocês Antigo e Aceito também abrem as suas sessões, no grau de aprendiz, com a leitura dos versículos 1-5. Enquanto as que operam no Rito Adonhiramita abrem as semelhantes sessões com a leitura dos versículos 6-9.

 Concluímos estas leituras do prólogo do Livro Iohanan – Evangelho Segundo São João – esperando ter apresentado uma introdução à mensagem de revelação testemunhada por quem esteve ao lado do Mestre Yeschua, desde os primeiros passos da revelação – com o batismo das águas – até ao pé da cruz.

 Poeta Hiran de Melo - Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita - oráculo de Melquisedec, ao Vale do Mirante, 8 de fevereiro de 2008 da Revelação do Cristo.

 Referências básicas e leituras recomendáveis.

1.   A Bíblia de Jerusalém. Edições Paulinas, 1973.

2.   Uma Igreja que Acredita. Edições Paulinas, 1999.

3.   Caminhando na Estrada de Jesus. Edições Paulinas, 1996.

4.   O Evangelho de João. Jean-Yves Leloup. Editora Vozes, 2000. 


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