Loja Maçônica – Capítulo 1

 

"Ao ser convidado para ingressar na ordem maçônica me senti, inicialmente, orgulhoso, extremamente curioso e também temeroso. 

Orgulhoso por ser chamado a participar de uma organização composta por pessoas ilustres e de bom caráter. 

Curioso, pois, ao ser convidado fiz algumas perguntas a alguns maçons conhecidos e obtive poucas e evasivas respostas. Então recorri a internet em busca do verdadeiro significado de maçonaria. 

Foi aí que surgiu a temerosidade". Irmão Beethoven.


Meus amados irmãos, espalhados pelo mundo e unidos ideologicamente na fraternidade e na força da Maçonaria. Que o Grande Arquiteto do Universo derrame sobre todos nós a luz da sabedoria.

 

Na última sessão da nossa Augusta e Respeitável Loja Maçônica 'Fraternidade, Força e União', o querido irmão Aprendiz Maçom Beethoven apresentou a peça de arquitetura denominada "Como é, como realmente entendemos e como queremos a nossa Maçonaria".

 

O título, por si só, já se constitui um desafio enorme. A peça seria um desafio ainda maior, porque não era uma peça que apresentava respostas, mas perguntas. Quatro perguntas, que em seguida derivavam mais quatro.

 

Como entendemos e qual o verdadeiro papel da Maçonaria em nossa sociedade? Além disso, que tipo de Maçonaria temos e como desejamos vivenciar nossa condição de maçons? Estamos, de fato, sendo fiéis aos princípios maçônicos? Sentimo-nos satisfeitos com a Maçonaria como ela é? E mais, será que podemos aprimorá-la? Que tipo de Maçonaria almejamos?

 

Responder a essas perguntas exige um profundo exame da Maçonaria como um ideal utópico e das organizações maçônicas que visam construir os alicerces de uma sociedade justa e perfeita. Para que possamos responder a todas essas questões de forma abrangente, é necessário traçar um caminho a ser percorrido. Afinal, essas perguntas estão interligadas e exigem uma análise conjunta.

 

Para auxiliar nessa jornada, gostaria de compartilhar com vocês, amados irmãos, um conto.

 

Era uma vez um jovem rapaz que se encantara com a aparência de uma jovem e, corajoso, pediu-lhe uma fotografia, uma cópia fiel e exata. Ela, por gentileza, permitiu que tirasse uma foto naquele momento de maior encantamento. Em seguida, oferece a ele.

 

O jovem, então, todos os dias, ou mesmo a cada instante da sua vida, passava a contemplar aquela foto, como se fosse uma cópia fiel e incorruptível da jovem donzela. E a cada vez, mais se apaixonava pela foto do que pela donzela. No final de longo processo de cortejo, namoro, noivado, etc., casou-se com a donzela, pensando estar se casando com a que a foto representava.

 

Ele se casou com uma mulher concreta que, como tal, está em permanente mutação. Todavia, ele se imaginava casado com uma mulher imutável, imagem fiel da registrada na foto.

 

Penso que os irmãos podem imaginar o conflito que será a convivência deste pobre rapaz com a donzela real com a qual se casou. A cada dia, ele exigirá que ela seja a imagem registrada na foto, gravada em sua alma como um desejo inalcançável. Enquanto ela, inevitavelmente, será cada vez mais diferente da foto de sua paixão.

 

Para agravar o quadro, imaginem, meus amados irmãos, que o rapaz nem esteve presente no momento em que a foto foi tirada. E, mais ainda, ele nem teve a oportunidade de ver a donzela. Apenas a viu de relance, encoberta em véus. Ele recebeu uma foto, escolhida para o encantar.

 

Da mesma forma, ao ingressarem em uma organização maçônica, as pessoas trazem consigo uma imagem idealizada da Maçonaria. Nessa imagem, a Maçonaria é apresentada como igualitária, libertária e fraterna, com obreiros unidos, solidários, filantropos – justos e perfeitos. Essa imagem, por sua vez, está inserida em uma estrutura atemporal: a Maçonaria Universal e Milenar.

 

Não é preciso pedir aos amados irmãos que imaginem o desespero do iniciado ao descobrir a distância entre a foto e a instituição concreta onde foi acolhido. Todos já passaram por essa experiência.

 

Muitos obreiros, ao perceberem a distância entre a imagem idealizada e a realidade da Maçonaria, afastam-se definitivamente. Outros, compreendendo a complexidade da vida e a necessidade de um ideal, permanecem para moldar a Maçonaria como ela é.

 

Há ainda aqueles que, mesmo permanecendo, não aceitam a diferença entre a imagem idealizada e a realidade. Imersos em uma constante busca pela perfeição, exigem que a Maçonaria seja imutável, o que é uma exigência inútil e prejudicial à instituição.

 

Meus amados irmãos, o ser humano é resultado de suas relações com os outros e com o mundo criado por ele mesmo. A cada instante, interagimos com o mundo, transformando-o e sendo transformados por ele.

 

As relações são dinâmicas, tornando a vida um constante movimento. A vida, como energia cinética, está em constante fluxo. A foto, por sua vez, é estática. Os antigos já diziam: um mesmo homem nunca toma banho no mesmo rio. Na segunda vez, as águas do rio já mudaram e o homem, também.

 

Amados irmãos, a Loja é a expressão concreta da Maçonaria, e o Venerável Mestre, como representante da Sabedoria, guia os trabalhos. Qualquer atitude que desrespeite o Venerável Mestre enfraquece a Loja. Uma Loja forte depende de um Venerável Mestre forte. Qualquer contestação à decisão do Venerável Mestre mina a autoridade do obreiro e, consequentemente, a harmonia da Loja e da Maçonaria.

 

A potência é uma instituição que agrega um conjunto de lojas e tem como objetivo cuidar da regularidade maçônica; emitindo rituais, regulamentos, placet - documento que autoriza iniciação, elevação, exaltação, regularização e similares. Além de estabelecer acordo de cooperação com outras potências e tratados de mútuo reconhecimento.

 

A potência lembra, no mundo profano, um cartório que prima pela regularidade das lojas, mas não interfere na dinâmica de decisão das mesmas.

 

A dinâmica de decisão da Loja consiste em abrir a palavra a cada membro, sobre um determinado tema, iniciando no Ocidente e prosseguindo para o Oriente. Após as manifestações de todos, o Venerável Mestre solicita o parecer do Guarda da Lei. Este parecer é submetido à aprovação da Loja. Em caso de aprovação, torna-se a posição oficial da Loja. Caso contrário, o Venerável Mestre decide.

 

Lembrando, ainda, que cabe ao Venerável Mestre decidir qual tema será objeto de apreciação e deliberação da Loja. Incumbe-lhe, igualmente, decidir sobre os assuntos a serem deliberados pela Câmara do Meio, à qual apenas os Obreiros no Grau de Mestre têm acesso.

 

Retornando à alegoria da foto, convém lembrar que todo candidato à Ordem Maçônica ingressa com confiança, desconhecendo plenamente o que o aguarda. Aliás, quanto menor o conhecimento prévio do candidato, maiores suas chances de sucesso na iniciação. Nesse sentido, a ausência de uma imagem pré-concebida é benéfica, pois evita que o iniciado, no futuro, sucumba à tentação de querer que a realidade se conforme a uma expectativa irreal, como uma miragem.

 

A jornada maçônica segue um caminho de conhecimento, aceitação e amor. Conhecer a Maçonaria implica participar ativamente da Loja, vivenciando seus ritos e ensinamentos. Aceitar a Maçonaria significa abraçar seus princípios e valores, buscando a constante evolução pessoal. Ao alcançar o Grau de Mestre, o Obreiro deve honrar e proteger a Ordem Maçônica.

 

Em suma, qual a verdadeira natureza da Maçonaria? Ela representa uma utopia de uma sociedade justa e perfeita, onde cada indivíduo é valorizado de acordo com seus méritos — ideal exemplificado pela Lenda de Hiram. Essa utopia se manifesta de diversas formas, moldada pela singularidade de cada Loja Maçônica. A busca por uma definição única e imutável da Maçonaria é tão vã quanto a busca pela palavra perdida, pois a verdade maçônica é uma experiência pessoal e intransferível.

 

Poeta Hiran de Melo - Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita - oráculo de Melquisedec, vale do Mirante, aos quatro dias do mês das mães e das noivas, do ano de 2014 da Revelação da Palavra Encontrada.

 

Anexo: Analogia com outras instituições.

Este princípio, de haver uma distância entre a idealização e a prática, aplica-se também a outras instituições, como escolas, empresas e movimentos sociais. Assim como na Maçonaria, a Igreja Católica, por exemplo, apresenta uma face idealizada e outra concreta. A primeira, baseada em seus dogmas e princípios fundamentais, busca a perfeição espiritual. A segunda, representada pelas ações de seus membros, especialmente de seus líderes, como padres e bispos, revela as nuances e as contradições da fé em um contexto histórico e social específico.

 

Enquanto a Maçonaria enfatiza a fraternidade, a igualdade e o auto aperfeiçoamento, a Igreja Católica se concentra na salvação da alma e na relação com Deus. No entanto, ambas as instituições são marcadas pela influência de seus líderes e pela diversidade de interpretações de seus princípios.

 

Um padre, por exemplo, pode ser um exemplo de caridade e compaixão, enquanto outro pode ser mais rigoroso em suas interpretações doutrinárias. Da mesma forma, um Venerável Mestre pode inspirar seus irmãos a um trabalho filantrópico intenso, enquanto outro pode priorizar os aspectos ritualísticos da Maçonaria.

 

Histórico e Social Molda a Prática Institucional

 

O contexto histórico e social exerce uma influência profunda e duradoura sobre as instituições, moldando suas práticas, valores e objetivos. É como se as instituições fossem organismos vivos, adaptando-se e evoluindo em resposta às mudanças do ambiente em que estão inseridas.

 

As raízes de uma instituição, suas origens e os eventos históricos que a marcaram moldam sua identidade e seus valores. Tradições, costumes e normas estabelecidas no passado continuam a influenciar as decisões e ações presentes.

 

As instituições não são estáticas. Ao longo do tempo, elas se transformam em resposta a novos desafios e oportunidades. Revoluções, guerras, crises econômicas e avanços tecnológicos são exemplos de eventos históricos que podem causar mudanças radicais nas instituições.

 

A memória coletiva de uma instituição, suas histórias e experiências, moldam sua cultura e sua identidade. A forma como uma instituição se lembra de seu passado influencia a forma como ela encara o futuro.

 

Os valores e crenças predominantes em uma sociedade influenciam as práticas institucionais. Por exemplo, em sociedades individualistas, as instituições tendem a valorizar a autonomia e a competição, enquanto em sociedades coletivistas, a cooperação e o bem-estar comum são mais valorizados.

 

As relações de poder existentes em uma sociedade moldam as hierarquias e as dinâmicas de poder dentro das instituições. Grupos dominantes tendem a influenciar as políticas e as práticas institucionais de forma a preservar seus interesses.

 

As mudanças sociais, como a urbanização, a globalização e o avanço tecnológico, exigem que as instituições se adaptem a novas realidades. A resistência à mudança pode levar ao declínio ou à extinção de instituições.

 

Exemplos Concretos

 

A Igreja Católica, ao longo de sua história, adaptou suas práticas e doutrinas para se adequar aos diferentes contextos sociais e políticos em que esteve inserida.

 

As universidades, inicialmente voltadas para a formação de elites, se transformaram em instituições massificadas, com o objetivo de atender a uma demanda crescente por educação.

 

As empresas precisam se adaptar rapidamente às mudanças do mercado, aos avanços tecnológicos e às novas demandas dos consumidores.

 

O contexto histórico e social molda a prática institucional de diversas maneiras. As instituições são produtos de seu tempo e lugar, e suas práticas são influenciadas por um conjunto complexo de fatores.

 

Em resumo: as organizações são sistemas dinâmicos, moldados pela interação entre sua história e o contexto social. Sua memória institucional e os valores predominantes na sociedade influenciam suas práticas, identidade e cultura, impulsionando-as a uma constante adaptação.

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