O livro de Iohanan – Prólogo ao conhecimento do sagrado
Capítulo 4
A Gnose que o mundo desconhece
Na
plena luz do meio dia Iohanan guarda silêncio para a escuta do Logos que nele
habita. Teve a graça de receber o pneuma soprando sobre si pelo próprio Filho
de Deus. O seu livro deveria ser o resultado desta escuta. E assim é também o
décimo versículo do seu hino.
10. Ele está no mundo, o mundo existe por
ele. Mas o mundo não o conhece.
Sim, sim, é verdade. Até mesmo seus discípulos mais próximos não o enxergavam
plenamente. O Mestre Ieschua falava para as multidões, mas sempre explicava
depois aos mais próximos o significado pleno das suas palavras. Iohanan sabia
que apenas aos iniciados é possível passar a Gnose (o conhecimento do sagrado).
Não é uma questão de proibição. É uma questão de impossibilidade.
A Gnose – que não é sinônimo de saber intelectual – pode ser imaginada
como sendo aquele conhecimento que dá sentido à vida humana, que a torna plena
de significado porque permite o encontro do homem com sua filiação divina, com
Deus.
Para Iohanan a Gnose não é um conhecimento do mundo profano, mas sim o
conhecimento do sagrado. Portanto, é um caminho que conduz a autêntica
sabedoria. Ele escreve o seu livro de uma forma esotérica porque reconhece que
é só pela iniciação que se chega à Gnose. Mas, não apenas. Porque a iniciação é
necessária, mas não é suficiente. É preciso o silêncio, o vazio, para que a
revelação de potência se torne ação.
Ao lê
o Evangelho de Marcus ele pode verificar o registro deste fato, de forma
exemplar, a respeito do comportamento dos discípulos do Mestre
Ieschua. Não há como esquecer, ele estava entre eles.
Vejamos como exemplos, alguns registros contidos no Livro de Marcus. O primeiro
número designa o capitulo; o segundo número designa o versículo.
Não compreende as parábolas (4, 13; 7, 18). Não tem fé no Mestre Ieschua (4,
40). Não entendem a multiplicação dos pães (6, 52; 8, 20-21). Não sabem quem é
o Mestre Ieschua, apesar de conviverem com ele (4, 41). Antes conseguiam
expulsar os demônios (6, 13), mas depois não conseguem mais (9, 18). Brigam
entre si pelo poder (9, 34; 10, 35-36). Querem ter o monopólio do Mestre
Ieschua, pois acham que são os donos (9, 38). Levam susto quando o Mestre Ieschua
fala da Cruz (8,32; 9, 32; 10, 34-35). Desviam o Mestre Ieschua do caminho do
Pai (8, 32). Afastam as crianças (10, 13). Iehuda resolve traí-lo (14, 10.44).
Shimon, chamado de Kepha, chega a negá-lo (14, 71-72). Na hora em que o Mestre
Ieschua mais precisa deles, eles dormem (14, 37.40). E no fim, no momento da
prisão, todos fogem e o Mestre Ieschua fica só (14, 50).
Hoje para que possamos compreender plenamente o versículo 10 do hino é preciso
lembrar que a tradição hebraica, possuída por Iohanan, atribui à palavra mundo
(“kosmos” em grego) um significado distinto de universo. Nesta tradição o que
temos é “o mundo aqui presente”. Ou seja, o mundo vivido e construído pelos
homens – a história dos homens.
Atribuindo esta significação para a palavra mundo, é possível traduzir o
versículo 10 como: o Logos está na história dos homens, a história existe por
causa dele. Mas a história não lhe reconhece o seu lugar.
Recentemente o mestre Leloup comentou esta interpretação dizendo que “nos
nossos dias, não há lugar para o eterno; não há lugar para o infinito na nossa
finitude. A história é o que o homem faz do universo, para o melhor ou para o
pior; em harmonia com o Logos que o anima ou contra ele”.
Para aquele que deseja e constrói um mundo cada vez mais laico, dessagrado, é
bom lembrar que “o rio pode negar a existência de sua nascente, mas a água, até
mesmo a mais pura, cortada de sua nascente, não demora a corromper-se”.
Esquecer (negar) o fundamento religioso de uma organização iniciática maçônica,
em nome de uma pseudo-tradição laica, é equivalente a corta o rio da sua
nascente.
Lembremos que nem mesmo a chamada maçonaria operativa era laica.
Conta-se que um viajante passou por um prédio em construção e perguntou a dois
operários: - O que fazes?
Um respondeu laicamente: - Estou assentando pedras.
O outro respondeu maçonicamente: - Estou construindo um Templo.
No sentido objetivo, ambos estavam, de fato, assentando pedras. Só que o
primeiro estava alienado do sentido do seu trabalho. Enquanto que o segundo
possuída um sentido profundo (iniciático) do que fazia. Tinha este sentido
porque estava voltado para um Oriente. E este sentido é sempre religioso.
O mestre Leloup afirma que o sentido sagrado do mundo e da história não é o
progresso indefinido, mas a transparência ao eterno.
Francisco
de Assis com sua opção por uma vida em sintonia com a natureza é hoje o símbolo
do homem ecológico e muitos cientistas modernos fazem eco alertando que o
progresso (no sentido da expansão, aplica-se a lei da entropia) só pode nos
conduzir a morte (pela via da utilização predatória dos recursos naturais).
A
Tradição hindu nos alerta que estamos no estado “avidya” – no estado da
ignorância, equivalente a não-visão. Temos acumulado muito conhecimento, mas
temos nos esquecido do Ser: ficamos ao lado do que somos e daquilo para o qual
fomos criados.
O Grau de Companheiro Maçom é o estágio intermediário entre os graus de
Aprendiz Maçom e de Mestre Maçom. O Ritual do Grau 2 do Rito Adonhiramita,
publicado pelo Sublime Grande Capítulo de Santa Catarina, preceitua que o
cumprimento das obrigações do estado em que a providência colocou o obreiro, a
fuga do vício e a prática da virtude leva a Gnose. Em seguida defini a Gnose
nos seguintes termos:
“É a doutrina que concilia todas as crenças e explica o sentido profundo delas,
por meio de um conhecimento esotérico perfeito das coisas divinas, o qual só
pode ser comunicado por meio da tradição iniciática.”
Assim espera-se que seja apresentado à gnose ao obreiro colado no Grau de
Companheiro Maçom. Todavia, nem sempre isto ocorre, uma vez que a Gnose é a
sabedoria que brota do coração de forma misteriosa e intuitiva. Simplesmente
porque no coração o Logos habita. E para tanto, além dos processos iniciáticos,
é fundamental aprender a ficar em silêncio e na escuta do pulsar do coração.
É natural supor que os mestres maçons alinhados na corrente laica não dêem à
devida importância a Gnose, pois para eles, trata-se de algo que não está sob o
domínio da razão humana. Além de tudo isto, é bom observar que os mestres
alinhados com a venerável Tradição Iniciática, sempre apresentaram a ascese com
estágio preparatório no caminho que leva a Gnose. Ascese implica silêncio,
vazio, abstinência dos prazeres da carne e a prática da caridade. Um caminho
que muitas vezes se opõe as exigências do mundo moderno. Assim, não é de
admirar que muitas vezes fiquemos ao lado do que somos e daquilo para o qual
fomos criados.
Poeta
Hiran de Melo - Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita - oráculo de
Melquisedec, ao Vale do Mirante, 2 de fevereiro de 2008 da Revelação do Cristo.
Referências
básicas e leituras recomendadas
1. A Bíblia de Jerusalém. Edições Paulinas, 1973.
2. Uma Igreja que Acredita. Edições Paulinas, 1999.
3. Caminhando na Estrada de Jesus. Edições Paulinas, 1996.
4. O Evangelho de João. Jean-Yves Leloup. Editora Vozes, 2000.
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