O
livro de Iohanan – Prólogo ao conhecimento do sagrado
Capítulo
6
Vimos sua glória, plena de graça e
verdade.
O prólogo, composto como um hino, do Livro de Iohanan muitas vezes pode ser
visto como sumário da obra. Neste sentido um versículo ou um pequeno grupo de
versículos se constitui um tema que será posteriormente abordado com mais
detalhes e explicações. Um bom exemplo é o versículo 13 que anuncia os nascimentos
dos filhos de Deus, este tema é trabalhado em detalhes no Capítulo 3
(versículos: 5-8), quando o Mestre Yeschua explica a revelação em termos
simples a um importante peruschim, doutor em Israel, o rabi Naqdimon.
Ser
filho de Deus é uma possibilidade que é oferecida ao homem gratuitamente. Desde
que ele se disponha a encarnar o Logos que nele habita. Logos que foi
engendrado no homem pela vontade de Deus. O Logos é a luz, a vida eterna que
vem do alto, dos céus. E assim Iohanan cantou:
13.
Estes não nasceram nem do sangue, nem da carne, nem da vontade do homem, mas de
Deus.
Lembremos
que nascer da água equivale a ser iniciado na água (batismo oferecido por
Iohanan, o batista); nascer do sopro equivale à iniciação promovida pelo
próprio Mestre Yeschua: a escuta, a acolhida ao Pneuma, ao Espírito Santo.
5.
Ieschua lhe respondeu: Em verdade, em verdade, eu te digo: quem não nascer do
Pneuma (Sopro divino) e da água não poderá entrar no Reino de Deus.
6. O
que nasceu da carne é carne; o que nasceu do espírito é espírito.
7. Não
te admires de eu ter dito: é preciso nascer do alto.
8. O
Pneuma sopra onde quer e tu ouves sua voz, mas não sabes de onde ele vem, nem
para onde vai.
O
versículo 13 do prólogo é comentado na atualidade pelo mestre Leloup nos seguintes
termos: “Não somos apenas filhos de nossos pais, filhos de uma sociedade, de um
cosmos, mas também filhos de Deus”.
Iohanan
viu e cantou que o Logos encarnou-se no Mestre Yeschua, despojando-se de sua
divindade, tornando-se semelhante aos homens, para mostrar-lhes que eram
capazes de amar, sem deixarem de ser homens. O amor não é algo privativo ao
Pai, é também facultativo ao homem. Cabe a cada iniciado lembra-se de sua
dignidade original.
No
próximo versículo do hino, Iohanan fará uso da “basar” que quando traduzida
para o português simplesmente como carne não revela o sentido original da
mensagem. A tradução exata para “basar” é a carne no sentido da humanidade
(corpo e alma). É também um sinônimo de Adam (o terroso).
14. O
Logos fez-se carne. E habitou no meio de nós. Vimos sua glória, plena de graça
e verdade. Presença filial – unigênito – que ele recebe do Pai.
Pode-se
interpretar o versículo 14 como “O Logos fez-se Adam. E habitou no meio de
nós”. Equivalente a uma expressão mais filosófica: o eterno entrou no tempo; o
infinito entrou no finito, a transcendência encontrou-se com a imanência,
simbolizada mais tarde na Cruz de Yeschua.
No
Mestre Yeschua o Logos fez uma Tenda, um Templo, uma Morada... Iohanan viu e dá
testemunho de que o corpo do Mestre Yeschua abriga a Presença Divina e a
informação criadora.
Seguindo
a Tradição Gnóstica é possível afirmar: o corpo do Mestre Yeschua dá abrigo à
nova aliança. A Tradição também reconhece a via iniciática da ascese e da gnose
como uma porta aberta ao Logos, como uma oferenda permanente ao Logos do corpo
do obreiro como um Templo para a manifestação da sua glória. Particularmente
nas organizações iniciáticas maçônicas os seus associados são convidados a
lapidar a pedra bruta de modo que seja erigido um edifício interior, um templo,
uma morada, para a presença do Logos se manifestar com todo o seu peso.
Atualmente,
alguns mestres, a exemplo do mestre Leloup, acham que é necessário destacar que
o Logos não se instala no mundo. Ele acampa. Está de passagem. Assim, trata-se
de morada provisória: o tempo de afirmar e manifestar aos homens o amor com que
são amados desde a origem...
Ainda
é muito comum encontra-se nos templos maçônicos a divisa: À glória do Grande
Arquiteto do Universo. Na nossa língua a palavra glória está associada ao
significado de sucesso, de fama. Nesta acepção a divisa maçônica é risível.
Todavia, a palavra glória corresponde à palavra grega “doxa” que é a tradução
da palavra hebraica “kabod” que significa o “peso” da presença. Assim “vimos a
sua glória” corresponde a afirmar: vimos o peso de sua presença. Logo a divisa
maçônica “À glória do Grande Arquiteto do Universo” equivale ao “Reconhecemos o
peso da presença do Deus”. Divisa que rechaça qualquer calúnia contra a Ordem.
E
neste sentido que a palavra glória deve ser apreendida no cântico de Iohanan.
Teofania
é a palavra na nossa língua utilizada para designar a manifestação de Deus em
algum lugar, acontecimento ou pessoa. Assim, podemos afirmar que o Mestre
Yeschua é uma teofania. Antes do Mestre Yeschua as teofanias se davam de forma
esmagadora. Os profetas que as narram, a exemplo de Ezequiel, revelam um estado
de profunda admiração e perplexidade. Mas, a partir do Mestre Yeschua a face de
Deus, apresenta um “peso de um homem”. A face de Deus possui um “olhar de
leveza e libertação”. Possui um peso de ternura, um olhar de criança.
A
palavra graça possui duas acepções: fonte da dádiva daquele que dá e o efeito
da dádiva daquele que o recebe. No Mestre Yeschua as duas acepções se aplicam
simultaneamente. Assim é que quando Iohanan descreve o Mestre Yeschua como
pleno de graça e verdade, está a afirmar que no Mestre Yeschua habita a extrema
lucidez e o extremo amor ou que ele é a plena manifestação da dádiva e do
despertar.
O
Mestre Yeschua na sua passagem pela terra revelou uma presença filial, na sua
relação com o Criador, de Pai para Filho, única, daí denominá-la unigênita.
Pode-se também interpretar que assim como o Logos é na gênese do mundo de um só
gene (mono-gene), de um só movimento na direção do Criador, a obra do Pneuma
enviado por Yeschua é “transformar os seres dispersos, múltiplos que somos, em
seres monogênicos, unificados, voltados para o Pai”.
O
mestre Kalaf tem designado este ser monogênico como o “homem burilado”. Nesta
designação há uma referência à proposta, das organizações iniciáticas
maçônicas, que consiste em oferecer instrumentos simbólicos que serão
utilizados pelo obreiro no seu trabalho de revelar a pedra polida (obreiro
plenamente iniciado: o maçom) a partir do desbastar da pedra bruta (o candidato
à iniciação). Esta proposta faz uma alegoria com uma obra de arte que já
existia no interior da matéria prima e que o trabalho do artista consistiu em
revelá-la.
Lembremos
que este homem burilado não é mais um ser destinado à morte, mas um ser que
vive, na própria existência provisória terrena, no Reino de Deus, na vida
eterna.
Poeta Hiran de Melo - Mestre
Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita - oráculo de Melquisedec, ao Vale do
Mirante, 6 de fevereiro de 2008 da Revelação do Cristo.
Referências básicas:
1. A Bíblia de Jerusalém. Edições
Paulinas, 1973.
2. Uma Igreja que Acredita.
Edições Paulinas, 1999.
3. Caminhando na Estrada de Jesus.
Edições Paulinas, 1996.
4. O
Evangelho de João. Jean-Yves Leloup. Editora Vozes, 2000.
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