Iniciação, Evasão e o
Sentido da Jornada Maçônica
A evasão como sintoma
Por Hiran de Melo
A evasão maçônica não deve ser compreendida apenas
como um índice estatístico de desligamentos. Ela é, sobretudo, um sintoma de um
processo iniciático que, em muitos casos, não consegue cumprir sua função
transformadora. Quando o ingresso na Ordem se limita a uma experiência
ritualística superficial, sem acompanhamento consistente, o neófito tende a se
afastar, seja por desilusão, seja por incapacidade de encontrar sentido prático
naquilo que vivenciou.
Esse fenômeno revela que a evasão não é apenas
responsabilidade do iniciado, mas também da instituição que o acolhe. A Loja,
ao falhar em oferecer condições adequadas de iniciação e de integração,
compromete a permanência e a vitalidade de seus membros.
A iniciação como experiência
de ruptura
A iniciação maçônica é concebida como um rito de
passagem que convida o indivíduo a transcender sua condição ordinária. O
desbastamento da pedra bruta simboliza o esforço contínuo de autoconhecimento e
de domínio sobre o ego. No entanto, quando essa experiência não é conduzida com
profundidade, corre-se o risco de transformar o rito em mera formalidade,
inflando vaidades em vez de promover a lapidação interior.
A iniciação, em sua essência, deveria ser uma
ruptura existencial, um momento em que o indivíduo se confronta com sua própria
sombra e se abre para uma nova forma de ser. Se esse impacto não ocorre, o
iniciado permanece preso ao mesmo estado anterior, apenas adornado por símbolos
e títulos que pouco significam.
O papel da Loja e da
comunidade
A iniciação não se encerra no ritual. Ela exige
acompanhamento, diálogo e prática constante. A Loja, como espaço coletivo,
deveria ser o laboratório onde o iniciado experimenta os princípios da Ordem na
convivência fraterna. No entanto, muitas vezes, o que se observa é uma ênfase
desproporcional nos aspectos formais e simbólicos, em detrimento da vivência
ética e filosófica.
O aprendiz, deixado à própria sorte, busca respostas
em livros ou na internet, sem a mediação de mestres experientes. Essa “livre
instrução” pode ser valiosa, mas torna-se insuficiente quando não há orientação
que permita transformar conhecimento em sabedoria. A ausência de acompanhamento
gera confusão, superficialidade e, em última instância, evasão.
A pertença e o
reconhecimento
A condição de pertença à Ordem não deveria depender
apenas da validação externa. Quando o maçom precisa constantemente reafirmar
sua legitimidade perante os outros, isso revela uma fragilidade interior. O
verdadeiro reconhecimento nasce da coerência entre princípios e prática, entre
discurso e ação.
A maçonaria, nesse sentido, não é um espaço de
colecionadores de títulos, mas de buscadores de sentido. A evasão, portanto,
pode ser vista como um reflexo da incapacidade de muitos em encontrar esse
sentido, ou da falha da instituição em oferecê-lo.
A evasão como oportunidade
de reflexão
Embora seja um problema institucional, a evasão
também pode ser interpretada como um indicador de que o caminho percorrido não
estava alinhado às necessidades do indivíduo. Reconhecer a própria limitação e
desistir pode ser, em alguns casos, um ato de honestidade. Contudo, quando a
evasão se torna recorrente e massiva, ela denuncia falhas estruturais que
precisam ser enfrentadas.
A Ordem deve se perguntar: está oferecendo apenas
rituais e símbolos, ou está realmente conduzindo seus membros a uma jornada de
transformação interior? Está cultivando a fraternidade viva, ou apenas
preservando formalidades esvaziadas?
Recomendações concretas para
reduzir a evasão nas Lojas
1.
Seleção criteriosa de
candidatos
ü Avaliar não
apenas o interesse inicial, mas também a maturidade emocional e a disposição
para o trabalho interior.
ü Realizar
entrevistas mais profundas, com foco em expectativas e compreensão do propósito
da Ordem.
2.
Cerimônias de iniciação
bem preparadas
ü Garantir
materiais adequados e mestres experientes em cada sessão.
ü Evitar a
pressa: o ritual deve ser vivido como experiência transformadora, não como
formalidade.
3.
Programa estruturado de
acompanhamento
ü Criar grupos de
estudo e reflexão para aprendizes, conduzidos por mestres dedicados.
ü Estabelecer
tutoria individual: cada neófito acompanhado por um irmão mais experiente.
4.
Equilíbrio entre teoria
e prática
ü Complementar o
estudo simbólico com debates sobre ética, filosofia e aplicação dos princípios
na vida cotidiana.
ü Incentivar
projetos comunitários e ações sociais que deem sentido prático à pertença.
5.
Fortalecimento da vida
em Loja
ü Estimular a
participação ativa nas sessões, evitando que o maçom se torne mero espectador.
ü Promover
atividades culturais, palestras e encontros fraternos fora do templo,
reforçando os laços de amizade.
6.
Valorização da
experiência interior sobre títulos
ü Reforçar que
graus e aventais são símbolos de responsabilidade, não de status.
ü Incentivar a
humildade e o compromisso com o crescimento interior como verdadeiro objetivo
da jornada.
7.
Feedback contínuo
ü Realizar
avaliações periódicas sobre a satisfação e o engajamento dos membros.
ü Ouvir os
aprendizes e companheiros, ajustando práticas conforme suas necessidades e
dificuldades.
Conclusão
A iniciação maçônica, em sua plenitude, é um convite
à morte simbólica do ego e ao renascimento do ser autêntico. A evasão, por sua
vez, é o reflexo de quando esse convite não é aceito ou não é compreendido.
Mais do que números, ela revela a distância entre o ideal e a prática.
O desafio contemporâneo da maçonaria é resgatar o
sentido profundo da iniciação, oferecendo não apenas rituais, mas caminhos de
autotransformação. Com práticas concretas de acompanhamento, seleção criteriosa
e fortalecimento da vida em Loja, é possível reduzir a evasão e transformar
cada iniciado em um verdadeiro buscador da sabedoria.
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