Que Nunca Nos Faltem Irmãos Toleráveis

Prancha de Arquitetura Simbólica sobre o Convívio em Loja

Por Hiran de Melo

Ao transpor o Portal do Tempo, quando os anos já me ensinaram o valor do silêncio, percebo que ele se assenta no Templo interior como um Irmão veterano, daqueles que falam pouco, mas sustentam muito. Contudo, ao adentrar a Loja, aprendo que o silêncio absoluto não é virtude isolada: ele precisa conviver com o som vivo da Obra coletiva.

Na Loja em que trabalho, os muros não são paredes, mas limites simbólicos. Eles se erguem como Colunas invisíveis que não se destinam a separar, mas a ordenar. Ainda assim, são porosos: por eles atravessam o sopro da vida, o eco das vozes, o ruído inevitável do humano em construção. Nenhum Irmão é senhor absoluto do próprio sossego quando pisa o Pavimento Mosaico.

O vento que circula no Templo — esse obreiro invisível — traz consigo sinais do outro: o ritmo apressado de quem chega cedo, o compasso irregular de quem ainda aprende a manejar suas ferramentas, o som ora harmonioso, ora dissonante, que nasce do atrito entre pedras ainda em desbaste. Assim recordamos que trabalhamos lado a lado, e que a Obra não se faz no isolamento da cela, mas na presença do Irmão.

O Aprendiz que, ainda em silêncio ritual, transforma o limite em instrumento, lembra-nos que toda pedra bruta aprende pelo contato. Ele é, ao mesmo tempo, aquele que lança a pedra e aquele que escuta o eco. Seu gesto simples revela uma verdade antiga: ninguém se lapida sozinho.

Os Irmãos em Loja são como ondas que tocam o mesmo cais. Cada qual chega com sua força, seu tempo e sua cadência, mas todos procedem da mesma fonte. Há o Irmão vigilante, atento ao movimento do Templo, que observa mais do que fala — não por desconfiança, mas por zelo. Há aquele que saúda com entusiasmo, anunciando que a Luz já tocou seu Oriente antes de alcançar outros olhos. Nenhum deles é excesso; todos são função.

Nesta arquitetura simbólica, não se pede isolamento entre colunas. Pede-se delicadeza no convívio ritual. Trabalhar em Loja é como sustentar uma harmonia sem partitura escrita: se um Irmão ignora o ritmo comum, o conjunto perde equilíbrio. O descanso entre os trabalhos não deve ser trincheira, mas partilha de espaço e silêncio, onde cada presença respeita o tempo do outro.

Cultivar o próprio silêncio é exercício de esquadro; tolerar o som do Irmão ao lado é gesto de compasso. Há, porém, medida justa em todas as coisas: que nenhuma voz se eleve além do que os ouvidos da Fraternidade podem sustentar, para que a harmonia não se rompa.

Quando a Loja se fecha e a noite envolve o mundo profano, compreendo com serenidade: os Irmãos, com suas virtudes e imperfeições, são os instrumentos da grande Obra. Sem eles, haveria apenas um Templo vazio, colunas sem função, ferramentas sem uso.

Que nunca nos faltem Irmãos que se possam tolerar. Mas que, acima de tudo, cada um compreenda que a paz em Loja é como um instrumento antigo: exige atenção, mãos firmes e gestos cuidadosos, para que nenhuma corda se rompa antes que a Obra encontre seu justo acabamento.

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