Manifesto da Fidelidade Errante
Por Hiran de Melo
Eu não nego o amor. Sei
que amo e sei que sou amado. Mas não ofereço o que não posso dar: permanência.
Nas pessoas, o amor em mim se inflama como chama breve, intensa, mas logo se
consome. Nas pessoas, o amor se manifesta como paixão — paixão que é vento,
fogueira efêmera, cinza que testemunha o fim. E por isso não prometo eternidade
a quem me ama. Seria engano, seria mentira.
Mas há lugares onde minha
fidelidade encontra porto seguro. Não nos corpos que passam, mas nas
instituições que permanecem. É nelas que meu amor se transforma em compromisso,
em raiz, em permanência.
- Na
Escola, onde o saber se transmite e se
renova, encontro fidelidade. Ali, minha presença não é chama que se apaga,
mas continuidade que se fortalece.
- Na
Maçonaria, onde o rito e a fraternidade
sustentam o vínculo, minha fidelidade não se dispersa. É laço que não
depende da paixão, mas da tradição.
- No
Estado Democrático de Direito, minha fidelidade é
cidadania. É lealdade à justiça, à liberdade, ao pacto que nos une como
sociedade.
- Na
religião em que fui criado, encontro raízes. É
nela que aprendo a cuidar dos meus filhos e filhas, perpetuando um amor
que não se desfaz com o vento.
Às pessoas, ofereço o que
posso: intensidade, ternura, cuidado. Mas não lhes prometo eternidade, porque
sei que em mim o desejo é errante. Às instituições, porém, ofereço fidelidade.
Porque nelas o amor não é paixão efêmera, mas permanência que resiste ao tempo.
Este é meu manifesto:
Sou errante nas paixões,
mas fiel nas raízes.
Sou incapaz de prometer
eternidade a um corpo amado, mas capaz de sustentar, com o tempo, a fidelidade
a uma comunidade, a um rito, a uma tradição.
Sou aquele que prefere errar com o vento nas paixões, mas que se mantém firme
nos portos seguros que transcendem o indivíduo.
Assim sigo: não como quem
se engana, mas como quem assume sua condição. Errante no desejo, mas fiel no
compromisso. Incapaz de fixar-me no efêmero, mas capaz de permanecer no que é
maior do que eu.
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