Manifesto da Fidelidade Errante
Por Hiran de Melo
I. A Natureza do Fogo
O
amor não me é estranho; eu o reconheço, habito-o e por ele sou habitado. Contudo,
recuso-me a mercadejar o que não possuo: a permanência do desejo. Em meu peito,
o afeto por outrem inflama-se como labaredas súbitas — intenso em seu brilho, mas
breve em sua existência, consumindo-se em si mesmo. Nas relações humanas, o
amor traduz-se em paixão: esse vento que fustiga, essa fogueira que arde rápido
e deixa apenas a cinza como testemunha do que foi.
II. O Olhar e a Forma
Como
poeta, rendo-me à geometria do corpo e à beleza fugaz da rosa que desabrocha
para logo fenecer. Mergulho na alma da amante com o fervor de quem busca o
absoluto em um instante. Posso perder o encanto pelas linhas que o tempo
relaxa, mas jamais deixo de amar o olhar. Esse olhar, que me atravessou
uma vez, permanece habitando meu coração de forma indelével e indefinida. Por
isso, não prometo eternidade a quem me ama; fazê-lo seria o maior dos enganos.
III. Os Portos de Permanência
Se
sou errante nos corpos, encontro meu porto seguro naquilo que nos transcende:
as instituições. Onde o indivíduo é fluxo, a instituição é rocha. É
nelas que meu amor transmuta-se de chama em compromisso e raiz:
- Na Escola:
Onde o saber se renova e se transmite, minha presença deixa de ser faísca
para se tornar continuidade.
- Na Maçonaria:
O rito e a fraternidade sustentam um vínculo que não depende do sabor da
paixão, mas do peso da tradição.
- No Estado Democrático de Direito:
Minha fidelidade manifesta-se como cidadania, lealdade ao pacto social e à
justiça.
- Na Fé:
Reencontro minhas raízes para zelar pela posteridade e educar meus filhos
sob um amor que o vento não dispersa.
O Compromisso do Errante
Assumo
minha condição sem disfarces: sou errante nas paixões, mas fiel nas raízes. Incapaz
de jurar eternidade a uma forma física, sou plenamente capaz de sustentar a
lealdade a uma comunidade, a um rito e ao olhar que me capturou com a força do
eterno. Prefiro a honestidade do vento no desejo à mentira da constância,
mantendo-me firme nos portos que são maiores do que eu.
Somos errantes na vida, para buscar acertividade
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